segunda-feira, 23 de novembro de 2020

O ano só recomeça depois de agosto

Escrevo estas palavras com o olhar divido entre o computador e o horizonte, recortado entre os cumes das serras verdes que contrastam com o céu cinzento. O tempo está estranhamente frio, ventoso e escuro para este mês de agosto, mas para mim, apesar de tudo, as férias são neste mês.

Para mim o ano começa realmente em setembro. É assim há décadas, desde que vivi os meus primeiros anos letivos. Por isso a passagem de ano civil sempre me fez pouco sentido. O ano acabava depois das férias de verão, depois dos meus familiares que viviam em França voltarem, depois de provar o sabor do mar da região e do sol que dava lugar às noites quentes e silenciosas, mas que se interrompiam pontualmente pelas festas de aldeia cuja música passei a apreciar cada vez menos. Contudo as férias, para mim, continuaram sempre a ser em agosto, mesmo depois de começar a trabalhar, mesmo naqueles anos em que laborava todo o mês para poder ganhar algum dinheiro antes de voltar às aulas, talvez por isso custasse tanto aguentar aquele tempo fechado numa fábrica.

Mesmo depois de ter começado a trabalhar permanentemente, agosto continuou a ser mágico. Reservei sempre, no mínimo dos mínimos, uma semana para dele desfrutar, reativando memórias antigas. Pois era também o mês em que estavam de férias com os meus pais, habituados à interrupção laboral do ano, quando as fábricas fechavam e os operários tinham um vislumbre do que seria uma vida menos dura. Como filho deste mundo laboral industrial agosto era também o mês da pausa obrigatória, feita por questões de planeamento e eficiência. Era sempre um recomeço produtivo.

Como nos últimos anos andei próximo das escolas e universidades, quer a estudar quer a trabalhar, esta relação com um agosto de interrupção reavivou-se, com novas intensidades. Agora também entram em jogo as férias dos filhos, ritmadas pelos seus próprios andamentos. Apesar da minha família direta já ter voltado de França, herdei uma nova em diáspora. Voltei a recordar a emoção do mês de agosto, do reencontro e dos momentos únicos em espaços que temporariamente se transformam. Voltei, pela minha esposa, a experimentar o ambiente rural, pois hoje a cidade está cada vez mais perto da minha aldeia de origem, cada vez mais um subúrbio. Mais tarde ou mais cedo, a cidade, na sua forma menos densa, lá se irá impor. 

O tempo lá fora continua estranho ao que costuma ser agosto. A pandemia impede os hábitos de convívio, tudo ficou mais distante e condicionado. Até vou sentir falta das festas que habitualmente não aprecio. Aqui na vila que me acolhe por esta altura as coisas continuam a ser vividas a um ritmo mais lento, somente interrompido em agosto, por todos os emigrantes que retornam. Mas aos certo ninguém sabe como será. Vive-se um pouco na expectativa, tentando levar a vida com a normalidade possível.

Apesar de tudo, agosto continua a ser um mês augusto, um mês magnifico. Sem essa pausa seria dificil passar por todos os outros meses, avançar com os anos e ver o mundo a envelhecer enquanto nos reflete.


Texto publicado no Diário de Leiria  

As festas em casa e a substituição de moradores nas cidades

 Neste ano, sempre que cai a noite nas cidades, paira um manto de ruido que não era habitual. Em tempos de pandemia, especialmente nas zonas habitacionais de maior concentração, de prédios e apartamentos empilhados, as restrições mudaram comportamentos. Tendo em conta a qualidade construtiva e da própria arquitetura dos apartamentos, especialmente naqueles onde as pessoas dividiam quartos, esses espaços eram pouco convidativos à socialização. Mas neste momento, sem alternativas, as pessoas descobriram que podem fazer festas em casa, seja a que hora for.

Mas ao fazerem festas e convívios em apartamentos causam um profundo impacto na vizinhança. Quando ao lado moram pessoas de várias gerações e até de origens sociais e culturais diferentes o conflito tenderá a acontecer. Eu já passei por isto, e não tem sido fácil a convivência, apesar do esforço para dialogar e explicar a quem incomoda o seu impacto. Exige compreensão mútua, o que nem sempre é fácil de atingir.

Imagino que muitas outras pessoas tenham experimentado situações destas. Elas poderiam ser evitáveis, mas, provavelmente, vão tender a acontecer mais, à medida que os habitantes em certas zonas vão sendo substituídos por novos residentes, aproveitando a queda de preços, por outros mais jovens e estrangeiros, menos enraizados localmente. Neste momento fica-me a sensação de um certo abandono de alguns dos edifícios mais centrais e antigos das cidades. Talvez seja uma correria às vivendas e às habitações com algum espaço exterior, a pensar já em possíveis futuras vagas da pandemia. 

As cidades, até as mais pequenas como Leiria, estão a sofrer processos de mudança por causa da pandemia. Isto exige uma resposta. O setor imobiliário vai-se ressentir também, e todas as atividades associadas, tal como o próprio tecido social local que pode sofrer rasgos irreparáveis. Com a saída de estudantes de certos locais ficou um vazio que está a ser ocupado, talvez apenas temporariamente até voltarem. Desconhecemos que tipo de impactos económicos e sociais isto terá nas pequenas cidades que eram dependentes desse fenómeno. 

Tudo isto alimenta situações complexas e para as quais, na atualidade, temos poucas soluções. Faltam os espaços de comunicação e de planeamento da vivência comum. Dificilmente os poderemos criar agora, uma vez que as bases não estão lançadas e que reuniões presenciais são desaconselhadas. Podíamos tentar ensaiar ferramentas online, mas muitas dessas opções têm gerado espaços de odio e de polarização. O convívio presencial, cara-a-cara, atenua esses efeitos e gera mais compreensão. 

Esse tipo de iniciativas poderia partir dos cidadãos, das instituições ou dos dois em simultâneo. Imaginem como seria se tivéssemos estes espaços, tanto físicos como digitais, para poder gerar comunicação entre vizinhos em contexto urbano, tanto para resolver alguns conflitos como para gerar redes de entreajuda? Se não tentarmos nunca vamos conseguir mudar o estado das coisas. Vamos tentar?


Texto publicado no Diário de Leiria.


Valorizar as esplanadas e o espaço exterior à força

 A pouca importância que alguns restaurantes, cafés, pastelarias e bares davam à luz natural e ao espaço exterior sempre me deixou intrigado. Muitos destes espaços foram sendo instalados em edifícios que nunca foram pensados para esses fins, muitos em habitações e outros em lojas convencionais. Considerando estes condicionamentos, mesmo que se pretendesse, era difícil garantir uma boa relação com o exterior. 

A ausência de esplanadas também era comum. Quando existiam, muitas não passavam de algumas cadeiras e mesas espalhadas sem critério pelo exterior. Surgiam também aqueles casos das esplanadas totalmente cobertas e fechadas, autênticas estufas, que transformam uma suporta experiência exterior numa vivência de marquise. No fundo, esse recurso a explanadas tão fechadas, que esgotam o espaço público, são meras expansões de construção que tornam os edifícios e a sua relação com o exterior ainda mais disfuncional. 

Mas agora em contexto de pandemia, pela força da necessidade, as esplanadas abertas e arejadas são a norma. Teve de ser uma calamidade a fazer com que se descobrisse que é possível desfrutar de uma refeição ou de uma bebida ao ar livre? Obviamente que já existiam alguns espaços onde isso se podia fazer, mas este novo normal veio demonstrar que isso pode ser uma vantagem em praticamente todos os espaços, e que a qualidade das esplanadas vai ser um aspeto diferenciador. Quem tiver a melhor relação com o exterior vai prosperar. 

Parece absurdo que um país como Portugal precise de uma pandemia para apostar seriamente nas suas esplanadas. Basta viajar até outros países com climas muito mais agrestes para a vivência no exterior para perceber o nível do nosso desperdício, na incapacidade para saber valorizar o exterior, quer seja para atividades de comércio e serviços como fui referindo, quer para a disposição das próprias habitações. 

Continuamos a investir pouco nas nossas varandas e terraços. Os jardins da maioria das vivendas continuam a ser meros espaços frontais decorativos, pouco ou nada preparados para serem desfrutados por quem aí vive. São os casos das portas principais, salas de estar e jardins que se mantêm, mas para nunca serem utilizados. Provavelmente fruto de uma sociedade que ganhou mais meios materiais, mas que ainda não os conseguiu transformar em qualidade de vida. 

Tal como as vivendas, também temos espaços de comercio e serviços com potencial, mas falta aquele toque, aquele pormenor para os harmonizar com o exterior. A pandemia vai fazer também com que o espaço público exterior se valorize. Algumas esplanadas começam a avançar para espaços até agora reservados ao estacionamento automóvel. É um bom sinal e pode finalmente ser a força necessária para a melhoria da qualidade de vida nas cidades em Portugal. Só espero que não seja uma moda passageira e desgarrada dos processos de desenvolvimento urbanos. Porque para reclamar estes espaços que estavam destinados a outros fins, tais como o estacionamento, é necessária uma reformulação de todo o sistema urbano, incluindo o sistema de transportes. 


Texto publicado no Diário de Leiria


Levar uns jogos para as férias em família

 Em plena pandemia, sem sinal de abrandar em Portugal, os nossos hábitos de férias vão ter de sofrer algumas alterações. As grandes aglomerações em praias, hotéis, parques de campismo, festivais ou outros espaços semelhantes sofreram um rude golpe. O turismo urbano vai pelo mesmo caminho, pois as filas para visitar atrações, concentrações em espaços exíguos e o uso dos transportes públicos são desaconselhados. 

Muitas pessoas vão ter de reinventar hábitos. Provavelmente, muitos vão tentar escapar aos destinos habituais, procurar turismo rural e locais onde, eventualmente, consigam escapar a multidões. Não é apenas uma opção de gosto, este ano tem mesmo de ser assim. Muitos vão acabar por ficar por casa, apenas com saídas pontuais para arejar. Seja como for, a tendência será ficar e socializar com as mesmas pessoas em espaços delimitados e controlados. 

Mas esta nova realidade vem trazer desafios. Então o que fazer para ocupar e entreter estes grupos de pessoas em confinamentos condicionados? A minha resposta são as atividades coletivas, aquelas que possam fazer em casa, ou no exterior sem terem de se sujeitar a contactos externos. Teremos momentos em que iremos ficar em casa, provavelmente mais à noite, quer seja com a família ou com amigos com quem formos mantendo relacionamentos de proximidade e que estejam dentro da nossa rede próxima de contactos. 

Nesses momento, em que vamos ter de descobrir novas atividades, recomendo - como é meu hábito - experimentarem os novos jogos de tabuleiro. Podia recomendar outras coisas, mas os jogos são mais interativos e fomentam a socialização. Nos jogos de tabuleiro estamos todos a participar em simultâneo, olhos nos olhos, cara a cara. Se estivermos protegidos com essas pessoas do exterior então não haverá perigo. 

Com tanta novidade de jogos por explorar vão ter imensas possibilidade para aproveitarem estes momentos em grupo. Podem organizar sessões de jogos depois dos passeios e de fazer outras atividades. Podem até levar alguns desses jogos, aqueles mais simples e transportáveis, para as vossas próprias saídas, para jogar num jardim, debaixo de uma sombra, perto do rio ou do mar. Existem jogos para todos os tipos e apropriados a todas as condições possíveis e imaginárias.

Deixo então algumas recomendações de jogos simples, rápidos e transportáveis, destes novos designs que podem agradar a muitas pessoas.

Coloretto: um jogo de cartas em que temos de apanhar cartas de conjuntos que nos beneficiem e deixar as menos desejáveis aos adversários.

Dobble: jogo rápido de associação de objetos em que os mais rápidos a fazer essas associações ganham. 

Vende-se: jogo de leilões em que vamos tentar fazer os melhores negócios na compra e venda de casas.

Optimus: um jogo com alguns dados e que basta uma caneta para jogar, enquanto vão tentar fazer múltiplas combinações na nossa folha e libertar pontos. 

Millions: jogo de luta pelas cartas positivas e evitar as negativas, em que os jogadores têm de gerir os seus recursos durante o processo. 


Texto publicado no Diário de Leiria

O Youtube como forma de treino para comunicar

 Há uns anos comecei a escrever para os jornais locais, propondo os meus próprios textos de opinião. Depois fui colaborando pontualmente noutras publicações, num esforço para tentar melhorar a minha expressão escrita, mas também com o objetivo de ordenar as minhas próprias ideias. Criei vários blogues, sendo o primeiro de todos o abuscapelasabedoria.blogspot.com. Para além deste mantenho, entre outros, também o desartistico.blogspot.com, onde vou partilhando criações originais em vários formatos. Aproveito também algumas redes sociais específicas, tais como o Instagram e agora, mais recentemente, o Youtube. Todas estas criações servem três propósitos: registar o que faço, disponibilizar para poder receber críticas e aprender durante o processo. 

O Youtube tem-me permitido treinar outro tipo, mais profundo, de competências, que no meu caso eram praticamente inexistentes. A dicção, a fluidez do discurso e a emotividade da expressão não verbal eram miseráveis. Hoje continuam a ser fracas, mas a predisposição e regular produção de conteúdos vídeo, falando para uma câmara despersonalizada, que regista todas as nossas falhas, tem gerado imensas aprendizagens pessoais. Porque só é possível comunicar algo que se compreende, criar conteúdos vídeos de monólogos ou de diálogos é uma forma poderosa de nos submetermos a um processo contínuo de formação através da experimentação e da tentativa-erro. Esta é uma técnica típica da aprendizagem através dos jogos - que é algo a que me tenho dedicado - pois são arenas de experimentação estruturada por regras e com produção de respostas e avaliação para o desempenho dos jogadores. 

A produção de vídeos, submetidos numa rede social como o Youtube, é por si só também muito semelhante à aprendizagem pelos jogos. Podemos ver o resultado do que produzimos, para análise e melhoria. Os conteúdos submetidos numa rede social interativa permitem obter avaliações, quer pela quantidade de visualizações, quer pelas reações de aprovação ou desaprovação, tal como pelos comentários que eventualmente podemos receber. 

Neste momento o meu canal de Youtube “Jogos no Tabuleiro” (Youtube.com/c/jogosnotabuleiro), como expressão de entretenimento, mas também como espaço de exploração dos jogos de tabuleiro como ferramentas de aplicação para contextos sérios, ultrapassou os 1.000 seguidores. É muito pouco quando comparado com os canais mais visitados. Mas é muito para mim, uma vez que tem sido uma forma de cumprir os tais três objetivos anteriormente referidos: registo, avaliação e aprendizagem. 

Por isso, recomendo que experimentem algo de semelhante. Podem ficar muito longe dos principais youtubers, mas podem construir algo útil para vocês e para os outros, num espaço online interativo de aprendizagem individual e coletiva, no qual vão desenvolver competências essenciais para o atual e futuro mercado de trabalho. Fazer isto está cada vez mais simples, podendo ser feito através dos nossos telemóveis e com software fácil de utilizar.


Texto publicado no Diário de Leiria.


Saber viver e cuidar da boa vizinhança durante o confinamento

 Nestes últimos meses fomos todos forçados a passar mais tempo em casa. Esta necessidade extraordinária veio mudar muitos comportamentos e hábitos. Forçou-nos também a refletir sobre muitas coisas que as acelerações do dia-a-dia andavam a ocultar.

Pessoas que viviam em vivendas perceberam o quão importante é o seu espaço exterior, e as que vivem em apartamentos, em sentido inverso, ficaram a desejar por uma varanda maior. Percebemos que as nossas casas portuguesas estão pouco preparadas para vivermos nelas muitas horas, especialmente os apartamentos. E, com tantas pessoas em casa em simultâneo, surgem inevitavelmente situações de propensão para conflitos de vizinhança e dificuldades de convivência comum em espaços concentrados. 

Uma das razões para implementar os princípios de planeamento urbano colaborativo são precisamente estes conflitos que ocorrem, naturalmente, nas cidades, mas também em todos os territórios em que sobreposições de interesses diferentes ocorram. Isto é muito comum na utilização de espaços e recursos públicos, ondem existem várias prioridades e visões, com algumas delas a serem verdadeiramente antagónicas. Geram-se então conflitos, jogos de soma zero, onde o que uns ganham correspondem ao que os outros perdem. O planeamento colaborativo direcionado para a geração de consenso serve para mudar esse jogo, para que essas interações se transformem em jogos de soma positiva, em que todos ganham algo, garantindo que pelo menos algumas das suas demandas são consideradas.

Isto relaciona-se com coisas tão simples como ruido entre vizinhos. Este é um dos casos mais simples fruto do confinamento forçado. As pessoas vão estar mais tempo em casa, expressando os seus modos de vida e cultura de diversas formas. Uma delas é comunicando, outra é através da música. Tendo em conta o tipo de construções correntes em Portugal, especialmente em apartamentos, isto pode gerar problemas de vizinhança. Mais ainda quando não existe uma noção de respeito mútuo, provavelmente alimentada pela falta de espaços de diálogo e de compreensão mútua, aqueles espaços que resultariam da implementação de processos contínuos de planeamento colaborativo. 

Se as pessoas, mesmo sendo recém-chegadas a um prédio ou bairro, fossem integrados em comunidades organizadas para defender os seus interesses comuns teríamos mais facilidade em resolver estes atritos evitáveis. Seriam também formas de prepararmos as comunidades para responder ao poder político ou lobbies que podem condicionar ou não defender os seus interesses. A comunidade podia ser mais pró-ativa e ter um papel de transformação nas políticas territoriais, melhorando assim a sua qualidade de vida e a própria democracia participativa através destas abordagens colaborativas. 

A pandemia e seu confinamento ajudou-nos a perceber a importância de gerar condições saudáveis de vizinhança, quer seja para termos coisas tão simples como o descanso em casa, como para a possibilidade de podermos mobilizar forças coletivas para melhorarmos o futuro das nossas cidades. 


Texto publicado no Diário de Leiria


Jogos de tabuleiro para desenvolver competências nos profissionais de saúde

 Todas as civilizações têm os seus jogos e desde tenra idade que uma imensidão de jogos nos fascinam e desempenham um papel importantíssimo na nossa aprendizagem e desenvolvimento. Continuamos a jogar pela vida fora, mas a perceção tende a mudar. Apesar disso o nosso cérebro mantém-se plástico ao longo da vida, pelo que nunca deixamos de aprender, mesmo em idades mais avançadas. 

Os jogos geram experiências e estéticas que nos fascinam e emocionam. Transportam-nos para espaços imaginados onde tudo pode ser experimentado e testado. Logo os jogos são arenas de teste, mas diferentes das brincadeiras, pois essas não têm de ser estruturadas, não de ter regras definidas nem objetivos para alcançar. 

Todas estas características dos jogos permitem que sejam utilizados, mantendo a diversão, em contextos sérios. Através deles podemos treinar competências, melhorar as que temos e desenvolver até novas, num ambiente seguro, pois nos jogos a perda não tem consequências negativas. Nos jogos aprendemos perdendo simbolicamente, aprendemos errando e testando novas formas de abordar os desafios que nos são apresentados. 

Mas existem muitos jogos, de todos os tipos e com características que se adequam mais a certos contextos de aprendizagem e treino que a outros. O caso dos jogos analógicos, na sua maioria jogos de tabuleiro, porque se jogam sobre uma superfície, existem vantagens únicas. São naturalmente mais colaborativos, pois necessitam do envolvimento ativo dos jogadores para funcionarem. São mais transparentes nas suas mecânicas, permitindo adaptações com facilidade. Ao serem assim flexíveis, são excelentes para aplicar a contextos e objetivos particulares. Por serem necessariamente presenciais, vivendo da materialidade dos componentes e da riqueza da interação humana, são perfeitos para desenvolver competências sociais, muitas delas associadas ao que conhecemos por soft skills, as competências ditas suaves, mas que são essenciais. 

Por isso estamos a propor um projeto inovador, nascido em Leiria, na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Leiria (ESSLEI-IPLEIRIA). Uma ideia que consiste em aproveitar os novos designs de jogos de tabuleiro modernos, aqueles que os Boardgamers de Leiria da associação Asteriscos têm utilizado nos seus múltiplos projetos educativos e sociais. Com base nisso estive a ajudar a Marlene Rosa, investigadora e professora da ESSLEI-IPLEIRIA a criar um projeto para candidatarmos às Academias de Conhecimento da Gulbenkian. Nesse projeto propomos desenvolver sessões de treino de soft skills para que os futuros profissionais de saúde possam estar ainda mais preparados para lidar com as experiências e interações humanas em contexto de trabalho. Para isso queremos ajudar a desenvolver a comunicação motivacional, escuta ativa, gestão de expetativas, gestão de conflitos e tomada de decisão, tal como o estímulo criativo, entre outras. O projecto chama-se Gym2beKind, pois no fundo pretende criar um ginásio para treinar para a simpatia e humanização através da diversão. 


Texto publicado no Diário de Leiria.


Andamos a fazer demasiadas coisas ao mesmo tempo em casa

 O confinamento veio demonstrar como podemos fazer muitas coisas sem sairmos de casa. Neste momento fazemos claramente coisas a mais em casa, muita produtividade absoluta, mas pouca qualidade relativa. Os dias alongam-se sem barreiras entre a vida caseira e laboral. A casa transformou-se numa escola e os pais impreparados em professores. As crianças vão saltando de sofá em sofá, desejando poder voltar à rua e ao convívio com os colegas, exorcizando e libertando a energia que outrora ecoava coletivamente nos recreios das escolas.  

Os apartamentos ficaram mais exíguos, pois deixaram de ser meros dormitórios. Os lares passaram revelaram a sua ineficiência como máquinas de habitar, pois nunca as preparámos verdadeiramente para isso. Cozinhamos mais, sujamos mais, e em vez de vivermos apenas sobrevivemos mais em casa. Trabalhamos, educamos e pouco descansamos. Estamos todos no limite. 

Fazemos tantas coisas em casa, mas vamos, inevitavelmente, fazendo muitas mal. Faz-se tudo na medida do possível, de um modo que antigamente parecia impossível. Vivemos numa atarefada incompetência, a lidar com plataformas de comunicação desconhecidas onde participamos sem estar verdadeiramente presentes: a fingir que somos professores, a inventar novas formas de trabalhar e sem tempo para descansar. Fazemos isto tudo ao mesmo tempo, enquanto evitamos ser maus pais. As crianças dificilmente percebem que não lhes podemos dar a atenção que desejariam. Afinal, estando sempre em casa é normal que se sintam confusas.  Antigamente só estávamos todo o dia em casa nas férias e fins de semanas. Agora trabalhamos, enquanto garantimos que os nossos filhos têm aulas e fazem os seus deveres, enquanto se acumulam mais e mais tarefas domésticas. Temos toda esta carga sem poder recorrer ao apoio da família alargada. 

Estamos todos, permanentemente, numa situação de contínua pressão. Os pais não estavam preparados para estar tanto tempo com os filhos. O nosso modelo de organização social não previa isso. Mesmo quando um dos pais pode ficar em casa, o que é cada vez mais raro, existe uma rede de relações e atividades que permitem criar quebras para recuperar e desligar da realidade doméstica. Agora não temos nada disso. 

Agora fazemos muito mais coisas, mas não as fazemos bem. Trabalhamos pior, embora o trabalho à distância possa ser muito produtivo. Nestas condições estamos longe de poder potenciá-lo. Estamos ainda mais envolvidos na educação dos nossos filhos, mas sem as devidas competências para isso. Vivemos mais as nossas casas, apesar delas pouco se prestarem a essa intensidade de utilização. Este confinamento está a demonstrar que não conseguimos nem podemos fazer tudo ao mesmo tempo. Existem limites que temos de respeitar. 

Quando passar esta crise será que algo vai realmente mudar? Sabemos que a memória individual e coletiva são curtas. Mas esta experiência assemelhou-se a um trauma. Quando pudermos será que vamos deixar de correr tanto e tentar fazer tantas coisas ao mesmo tempo? Será? 


Texto publicado no Diário de Leiria.

Deveria existir permanentemente uma RTP Escola

 Em momentos de crise ocorrem situações extremas de necessidade de adaptação, e das quais surgem coisas interessantes e úteis que não imaginaríamos de outra forma. 

Nós, pais de crianças em idade escolar, não imaginávamos que iriamos estar em casa, a trabalhar à distância enquanto, ao mesmo tempo, teríamos de substituir parte das tarefas dos professores. As escolas tentaram dar respostas, umas melhores que outras, mas estamos todos em situação de exceção e de natural desconforto. O uso das tecnologias de comunicação e informação teve um impulso e crescimento exponencial, ao ponto de se dizer que o ensino nunca mais será o mesmo. O próprio conceito de telescola, que serviu para aumentar a escolaridade dos portugueses a partir dos meados dos anos 60, foi agora recuperada depois de abandonada há uns anos. A grande questão é: porque não estavam implementados estes modelos de ensino à distância?

O #EstudoEmCasa é a nossa telescola da atualidade. Porque não apostar, a partir de agora, neste formato de ensino de forma permanente? Não seria útil para as crianças, mas também para os adultos? Com um investimento contínuo haveria condições para melhorar este tipo de serviço público. Poderiam ser exploradas formas mais interativas, com mais elementos multimédia nesta nova telescola, indo até além da tradicional televisão. Quantos adultos não ganhariam com esta possibilidade de rever ou reaprender o básico da escolaridade? Havendo uma grelha pública mais alargada e a possibilidade de termos mais canais de acesso gratuito através da TDT porque não criar a RTP Escola? Esse canal poderia ser um apoio permanente aos estudantes dos vários graus de ensino, algo que os pais pudessem assistir também, numa reinvenção da televisão como atividade familiar. Poderia exibir documentários temáticos acessíveis que interessassem a todas as idades. Quem não pode pagar televisão por cabo ou os canais de streamming, como Netflix e outros, não tem grandes alternativas a telenovelas, reality shows e noticiários repetitivos. Isto seria, verdadeiramente, um serviço público educativo e formativo, quem sabe um modo de combater o flagelo da nova ignorância e das notícias falsas. 

Reparem como esta nova escola televisiva poderia ser também uma forma de gerar igualdade de oportunidades, proporcionando mais uma alternativa para as famílias que não podem pagar apoio ao estudo ou explicações. Seria uma forma de reforçar o serviço público de uma forma muito concreta. Seria também uma forma de criar emprego para professores que se poderiam especializar nestes novos formatos de comunicação educativa. Poderia gerar mais empatia e aproximação dos professores aos cidadãos, reforçando a sua imagem e reconhecimento social. O futuro depende deles como profissionais, das nossas crianças como agentes ativos dos ensinamentos e competências que adquirem, mas também de todos nós que aspiramos a uma sociedade onde o saber e a cidadania dominem. Quem sabe a telescola do futuro possa contribuir para isso.


Texto publicado no Diário de Leiria.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Aproveitar o vírus para decrescermos e evoluirmos

Depois de uma grande crise surgem sempre oportunidades de mudança e de fazer uns clichés. No final Vai Ficar Tudo Bem, porque ninguém sabe quando é isto acaba, mesmo quando inventamos finais felizes em histórias para acalmar os espíritos mais infantis. Era uma vez um sistema capitalista altamente adaptável onde todos vivíamos, mas onde nem todos morrerão felizes para sempre, porque o sistema está sempre a mudar e a transformar-se em realidades cada vez mais complexas. 

Muito do que fazemos afinal era inútil e dispensável. Percebemos que conseguimos viver consumindo menos. A produtividade bruta não é o mais importante, e não depende de horários rígidos nem de reuniões presenciais. Podemos ser produtivos sem nos deslocarmos e gastar recursos. Acelerámos sem bólides e não perdemos a nossa existência ao dispensar tantos papeis, viajar e vestir formalmente roupas uniformizadas. Também não precisamos de ir tantas vezes às compras. Mas precisamos de casas confortáveis, de saber estar e viver uns com os outros nos mesmos espaços. Precisamos de reaprender as vantagens de viver em comunidade, mesmo que seja para falar à varanda.

A pandemia traz uma lição de humanidade, mas só para alguns. Não estamos todos no mesmo barco, nem nas mesmas casas. É muito comodo falar das dificuldades do confinamento quando conseguimos manter os nossos rendimentos, ter conforto e múltiplas atividades para nos entreter. 

O confinamento obriga-nos a pensar. Alguns de nós ficaram com mais tempo, outros sentiram o efeito oposto, pela sobrecarga do trabalho remoto em simultâneo com o incremento das lides domésticas e da educação dos filhos perdidos sem aulas. Sabemos que não vai ficar tudo bem, que os impactos sociais e económicos vão ser imensos. Sabemos que a democracia corre riscos sérios, pois são estes os momentos mais propícios para o surgimento de extremismos. Os governos, por mais liberais que sejam, vão ter de intervir diretamente na economia e fazer planeamento social. 

Apesar de tudo, o modelo capitalista vigente não sabe lidar com decrescimento, por isso vai querer vingança. Dos cuidados intensivos aos infetados pelo COVID-19 os governos vão focar-se em cuidado paliativos para manter o capitalismo vivo. A próxima crise provocada pelas alterações climáticas, agora atenuada com o abrandamento económico, poderá ser então acelerada de forma irreversível. Com a natural reação furiosa para recuperar o “tempo perdido” iremos acentuar o crescimento a todo o custo, consumindo mais ainda que antes. 

Então é o momento de planear, apesar de todas as incertezas. Estamos no pico da curva da esperança, em frente à bifurcação da sustentabilidade. Há que aproveitar o momento para mudar rumo à sustentabilidade. Está na altura de consumir só o que precisarmos, de preferência de origem local e de acordo com a sazonalidade, transferindo a ânsia consumista para a cultura, porque essa nunca se esgota. Está na altura de evitar deslocações e trabalhar usando as tecnologias que nos permitem escapar aos modelos produtivos rígidos e seus desperdícios. 

Texto publicado no Diário de Leiria
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Redundâncias da Actualidade - criado em Novembro de 2009 por Micael Sousa





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