sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Porque não vamos estar sozinhos: algumas recomendações de jogos para animar o Natal

 Este foi um ano estranho por muitos motivos, um deles foi o acelerado ritmo a que chegámos ao Natal. Pelo menos foi assim que eu senti o passar do tempo. A abertura do verão passou num ápice, e de súbito o agravar da situação e as preocupações com todas as incertezas trouxeram um Natal sem preparação. 

Este não teremos um Natal convencional. Vamos ter de reduzir o número de pessoas com quem iremos estar. As grandes reuniões de família e de amigos terão de ser adiadas. No entanto, uma grande maioria de nós também não estará sozinha. Vamos tentar todos estar à mesa, pelo menos com a família mais próxima ou com quem convivemos diariamente. Vamos ter de ficar em casa, evitando os passeios e as aglomerações que também ajudavam a dar ao Natal as suas cores. Vai ter de ser diferente. 

Mas existem outras alternativas. Temos de as encontrar para explorar este tempo que temos. A minha recomendação é, novamente, jogos de tabuleiro, jogos analógicos que fortalecem as nossas interações e relações. Não estou a falar dos jogos clássicos, aqueles que vemos, de forma repetida ano após ano, na maioria dos supermercados e grandes superfícies. Estou a falar de outros, dos jogos de tabuleiro modernos, especialmente dos jogos de inspiração europeias, que geram interações mais colaborativas e menos conflituosas, mesmo sendo competitivos. Apesar de serem menos conhecidos, estes jogos começam a ser mais comuns cá em Portugal, com editoras nacionais a ganharem escala, incluído as de Leiria.

Deixo então aqui algumas recomendações, desta vez de 7 jogos simples, onde podem explorar múltiplas experiências na quadra que se avizinha. Recomendo, naturalmente, alguns jogos que estão disponíveis em Portugal:

3 Tigres: jogo do “desconfia” em formato cartas, com novas habilidades e com ilustrações muito cativantes, que pode ser jogado em 15 minutos.

Café: jogo rápido de planeamento e gestão, em que as cartas representam as nossas infraestruturas e os cubos a nossa produção de café.

Código Secreto: jogo de espiões onde o significado das palavras e seus adjetivos fará a diferença entre a vitoria e derrota.

Ekipas: jogo de festa com atividades de perguntas, desenhos e muito mais, mas onde a dimensão coletiva e trabalho em equipa gera momentos hilariantes nunca vistos. 

Monstro das Cores: jogo colaborativo que nos vai levar a falar sobre os nossos sentimentos e emoções.

Poker de Bichos: jogo de bluff que vai testar a capacidade de ocultar, mas também a decisão estratégica.

Rossio: ao colocarmos peças e gerirmos dinheiro e trabalhadores iremos contruir a praça do Rossio. 

Estes são apenas alguns dos exemplos das centenas de jogos que estão disponíveis em Portugal. Estes são alguns dos mais simples. Despois existem muitos outros, para quem se queira aventurar em experiências mais profundas. 

Somos um povo de interações à mesa, embora ficar por casa não seja um hábito muito generalizado, talvez estes e outros jogos nos ajudem a ultrapassar com mais alegria este Natal diferente. 


Texto publicado no Diário de Leiria


Chuva na rua e jogos na mesa

 Estava com dúvidas sobre o que escrever para esta crónica. Aqui fechados por casa, quase totalmente dedicados às lides domésticas, não ajuda a imaginar algo para partilhar que merecesse ser lido. Na rua paira a ameaça do vírus, que não se assusta sequer com o frio. Através da janela apreciamos a beleza melancólica da chuva que cai do cinzento das nuvens. Acendemos a lareira para partilhar com ela o calor e a vivacidade das chamas. Neste marasmo ocupado, entre tarefas domésticas e os trabalhos de casa dos miúdos, afinal do que valerá a pena falar?

Mas lembrei-me! Nestes dias houve algo que trouxe uma cor que rivaliza com as luzes intermitentes da árvore de natal. Foram as pausas em que conseguimos limpar a mesa de todos os afazeres, libertando-a para um jogo de tabuleiro. O tempo por casa, quando os miúdos estão acordados, passa a correr. Ainda assim, os jogos dão-nos momentos de pausa e de uma animação estruturada, orientada para um prazer que ensina e desenvolve competências. Até o mais novo conseguiu fazer uma jogada! É um orgulho que fica assim remetido às pequenas coisas, instantes passageiros, mas que vão persistir na memória familiar. Com a mais velha, a surpresa é outra. Ganhou-nos finalmente!

Depois lá virá o deitar, já a horas transgressoras. Os miúdos, depois de bem aninhados deixarão outros jogos entrar na sua imaginação. Teremos então o nosso momento de pausa como pais. Fica tanto por limpar. Mais um esforço até a casa ficar disfarçadamente arrumada e o tempo será todo nosso, todo o pouco tempo que resta. Lá ao fundo o sofá chamará, mas a mesa vence, convida a mais uma partida. Chegará o momento de jogar um jogo mesmo só para nós, experimentar uma cumplicidade intelectual, num momento de partilha e competição que nunca nos destrói, só reforça. Lá fora o frio reclamará pelo nosso calor. Quererá entrar, quererá jogar connosco. Mas o novo troco que colocamos na lareira ajudará.  

Estes dias de inverno, ainda mais isolados que nos anos anteriores, viramo-nos para dentro, para aqueles que nos são mais próximos. Privamos e interagimos. Procuramos novas formas de nos conhecer e explorar. Experimentamos novos jogos. 

Para estes dias de isolamento e frio, de luz decresce, a cada dia que passa, os jogos de tabuleiro podem ser a nossa iluminação artificial. Podem trazer momentos de partilha, de intimidade, de dinâmicas controladas, para todos e todas. Através das suas peças podemos viajar para outras realidades, imaginários ilimitados. Jogar um jogo de tabuleiro é partilhar e colaborar, é aprender e decidir passar um momento de proximidade. 

Bem, o mais novo já acordou da sesta. Começam outros jogos, vamos rolar pelos tapetes. Escalar pelos sofás, progredindo até aquela almofada mais distante. Vamos imitar animais, assumir outros papeis, rir e explorar o desconhecido. Logo à noite poderemos descansar, e até jogar um novo jogo mais sério. Quem sabe? Sabemos apenas que não queremos parar de jogar tão depressa, mesmo que o calor da rua venha e as paredes não nos sejam impostas. 


Texto publicado no Diário de Leiria

domingo, 6 de dezembro de 2020

Black Friday: deturpações e enganos para defender o ambiente

Num mundo globalizado, dominado por modelos agressivos de incentivo ao consumo, a disseminação mundial do fenómeno do “Black Friday” não surpreende. O “Black Friday”, traduzindo à letra, é a sexta-feira negra, embora não seja uma referência negativa. Era a primeira sexta-feira a seguir ao feriado e celebração norte americana do “Dia de Ação de Graças”, que, no calendário do comércio, marcava o início da época de Natal. Nesse dia as lojas abriam mais cedo e praticavam promoções e descontos que tendiam a ultrapassar os 50%. Era um dia simbólico, de apologia do consumo, mas que tinha também a função prática de fazer esvaziar as lojas de um modo orgânico, para que pudessem acomodar os novos produtos, dando o pontapé de saída para um mês de excessos. 

Nos EUA este tipo de fenómeno é compreensível, uma vez que o seu modelo económico assenta no incentivo ao consumo interno, de um modo avassalador desde o final da 2.ª Guerra Mundial. Igualmente avassalador são os efeitos ambientais deste consumo desregrado, algo que se manifesta nos usos per capita de recursos naturais. Um americano consome, em média, o equivalente aos recursos renováveis anuais de 5 planetas Terra. O que significa que estão com um défice de pelo menos 4 planetas. Mas nós em Portugal não estamos muito melhor, pois consumimos mais do dobro do que o planeta poderia gerar anualmente. Os efeitos disto só não têm sido maiores porque em muitas partes do mundo uma multidão de pessoas consome muito menos, normalmente por questões de pobreza e não por opção. Por isso, se este “Black Friday” é negro, isso será pelos efeitos ambientais que provoca ao incentivar consumos excessivos, especialmente nos países onde isso já é insustentável. 

Mas como tem sido o “Black Friday” na prática em Portugal? Apesar do processo de aculturação, por cá modificamos tanto o conceito que o desvirtuamos até ficar irreconhecível. Se nos EUA as pessoas corriam às lojas, com inúmeros casos de violência, para meter as mãos naquela TV com 80% de desconto, por cá as lojas estão a praticar campanhas de descontos de 10 a 20%. Estão a chamar “Black Friday” a campanhas de promoção de baixos descontos que duram todo o mês de novembro. Qual a diferença para as campanhas de promoções tradicionais? Pouca ou nenhuma. Está tudo tão indiferenciado, o conceito tão mastigado e dissipado no tempo, que já nem se liga, pois são apenas os descontos do costume. Parece que isto do “Black Friday” apenas tem servido para nos relembrar da existência das lojas.

Visto de outra perspetiva, o modo como se deturpou o conceito de “Black Friday” em Portugal, com o seu incentivo ao consumo e ao esvaziar de lojas para a época alta do Natal pouco eficientes, pode ser apenas um reflexo na nossa maior consciência ambiental. Provavelmente foi uma maneira inteligente de controlar o consumo por cá. Se assim for, então há que reconhecer o mérito e inteligência desta opção. Por isso e não só, nem uma compra de “Black Friday” fiz. Mas só não fiz mesmo porque não encontrei nada que o justificasse. No final até fiquei com a consciência ambiental mais limpa. 

Texto publicado no Diário de Leiria


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Abordar e planear para os problemas de segurança de Leiria através de jogos

 As cidades são o produto humano de maior complexidade. Nelas coincidem atividades de todos os tipos, alimentadas por fluxos intermináveis ao longo do tempo. As cidades são os locais onde vive a maioria das populações humanas, em palcos contruídos que proporcionam oportunidades únicas, tal como perigos. Nas cidades encontramos diversidade humana e material, com inúmeras zonas de interação positiva, mas também de conflitos. Estudar as cidades é estudar a complexidade. Planear a realidade urbana é arriscar projetar na incerteza. 

Perante tais desafios e dúvidas os caminhos fazem-se de múltiplas maneiras. Até podemos ir mais depressa sozinhos, mas seguramente iremos mais longe juntos. Para lidar com os desafios urbanos do futuro, das cidades pós-industriais, pós-modernas, pós-carbono e pós-pandemia há que assumir a incerteza. Se planearmos juntos as nossas cidades para estes e outros desafios poderemos falhar, mas ficaremos preparados para melhorar da próxima que o fizermos. Ao participarmos no planeamento urbano colaboramos e ganhamos resiliência, que é a melhor arma para a incerteza.

Fazer aumentar a participação de cidadãos e entidades nos processos de planeamento urbano é desejável. Eleger políticos que nos representam não nos deve fazer diminuir o interesse pelos assuntos públicos. Como cidadãos, para nosso benefício, é imprescindível o envolvimento no planeamento dos territórios onde vivemos. Os políticos eleitos têm também interesse nesta abertura e partilha de poder de decisão, para ganhar o desejado apoio popular. Por isso, abrir os processos de planeamento ao conhecimento do dia-a-dia, de quem experimenta os espaços, tal como aos especialistas externos, permite fazer mais e melhores planos. Melhorar os processos de planeamento, tornando-os mais interessantes, cativantes e consequentes é igualmente imperativo para tornar a participação sustentável. 

Todas estas premissas estão neste momento a ser vertidas e aplicadas em Leiria, no UrbSecurity, em que cidadãos e instituições estão a colaborar entre si e com o município para definir prioridades e propostas de melhoria da segurança urbana. E isto está a ser feito através de novas metodologias de planeamento colaborativo, em que os resultados são fruto da interação de todos os intervenientes, auxiliados por dinâmicas de jogos que estimulam a criatividade, a reflexão e debate focado nos temas em causa, neste caso a segurança. Serão esses mesmos elementos de design de jogos que irão no futuro permitir testar as propostas, de modo a gerar planos coerentes, exequíveis e que resultam da vontade coletiva. 

Tudo isto pode parecer uma fantasia. No entanto, o processo já está em curso e já identificou as primeiras prioridades coletivas, nascidas da interação entre dezenas de pessoas. O jogo ainda só agora começou, mas já sabemos que teremos vencedores. Neste caso, independentemente do resultado, quem irá vencer seremos todos nós, mesmo que não tenhamos jogado. Imaginem então como seria se todos tivéssemos participado. 


Texto publicado no Diário de Leiria.


A base para o sucesso da Alta-velocidade em Leiria é o sistema de transportes local

 Tudo indica que em Leiria vamos ter acesso a comboios de alta velocidade. Poder chegar a Lisboa em pouco mais de meia-hora vai mudar o panorama local. No entanto, apesar da velocidade prometida, isto não será obtido automaticamente. De certeza que a futura estação de comboios não será no centro da cidade. Mesmo se fosse, não nos podemos esquecer que cerca de metade da população vive na periferia e nas zonas mais rurais. Estação não irá servir apenas o concelho de Leiria. O que significa que, muito provavelmente, chegar até à futura estação vai ser um problema. Embora, nada de irresolúvel. 

Uma futura linha de alta velocidade vai levar-nos do ponto A ao ponto B, mas até chegarmos a estes pontos temos de nos deslocar também. Usar apenas o automóvel para chegar a A seria estranho, uma vez que o dito comboio serve para reduzir a nossa dependência face ao automóvel, e para nos deslocarmos de modo mais comodo e sustentável até às grandes metrópoles portuguesas. Por isso, para que a alta velocidade se transforme realmente em redução de tempo de deslocação entre Leiria e o exterior urge ter um verdadeiro sistema de transportes, de preferência, intermodal. 

Vamos precisar de usar dos vários modos de transportes, cada um adequado a cada tipo de trajeto, para acedermos à futura estação. Uma rede de transportes públicos local, articulada com os concelhos vizinhos, realmente funcional. Conjugação com o acesso automóvel às zonas que não possam ser servidas de modo eficiente pelo transporte público. Uma ligação a uma rede ciclável que tem de ser conexa e não apenas composta por pequenos troços sem ligação entre si. Precisamos de conjugar as tecnologias de informação e comunicação que nos permitem partilhar veículos e sistemas automáticos de mobilidade. Pode parecer estranho, mas precisamos também de condições para andar a pé porque, no último trajeto, somos sempre peões, quer queiramos quer não.

Para além disto tudo temos a questão do preço. Ir de comboio vai ter de ser economicamente competitivo, ser mais vantajoso do que pegar no automóvel e seguir pela autoestrada, embora neste último modo nem sempre se contabilizem todos os custos associados ao uso do carro. Mas para chegar ao tal comboio de alta velocidade teremos de fazer o percurso de acesso, que será um custo adicional ao bilhete regular. 

Surge também a questão da intenção de transformar a base aérea de Monte Real em aeroporto civil. Com um acesso à alta velocidade, ligação à linha do Norte e uma reabilitação da linha do Oeste, teríamos um forte contributo para o sistema de acesso local e regional ao aeroporto. 

Tudo isto vai exigir avultados investimentos, tal como uma capacidade local de planear um sistema de transportes resiliente e mais complexo, que tem forçosamente de ser articulado com as escalas superiores, regional e nacional. Vai exigir que o processo seja participado e colaborativo, incluídos os atores locais e as populações, pois se assim não for o falhanço será garantido. 


Texto publicado no Diário de Leiria.


Das mecânicas de jogos às mecânicas de aprendizagem com jogos de tabuleiro

 Estive recentemente a apresentar um artigo de investigação numa conferência internacional sobre jogos, simulação e inteligência artificial. Apesar de parecer que só os sistemas digitais entrariam neste certame, o meu artigo versou sobre jogos de tabuleiro, comprovando que são produtos de inovação atuais.

Apresentei uma proposta para relacionar as mecânicas de aprendizagem com as mecânicas que fazem os jogos analógicos funcionar. Os jogos são, muito mais que brincadeiras divertidas, podendo ser coisas igualmente sérias. Quando garantimos esta combinação estamos a entrar nos “Serious Games” (jogos sérios). No artigo apresentado retratava uma experiência que fiz com alunos de MBA da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, onde um jogo, com as devidas alterações, serviu para abordar os conceitos de caminho ótimo numa rede. 

Uso da simulação, que neste caso junta a diversão, não é assim tão novo, embora a grande parte dos simuladores sejam muito complexos e, por vezes, pouco divertidos. Conseguir produzir algo que seja mais rápido, imediato e cumpra os objetivos de simular e ensinar tem imenso valor pedagógico e de treino. Mas para isso é preciso compreender como funcionam os processos de aprendizagem e como se constroem as dinâmicas de jogos. O segredo consiste em estudar e compreender as mecânicas de jogos, que são aqueles elementos interativos que alimentam os modelos e sistemas a que chamamos jogos, quando ativados pelos jogadores. Dominar as mecânicas exige aprendizagem, tanto na compreensão como na sua ativação de modo eficiente. Assim conseguimos estabelecer uma relação entre as mecânicas de aprendizagem e de jogo. Dominando as duas podemos então fazer Serious Games, que sejam cativantes para os utilizadores e atinjam os objetivos sérios. 

Quando os designers, professores e formadores dominarem estas mecânicas, facilmente poderão adaptar e construir novos jogos para os seus objetivos. Há que admitir que não é tarefa fácil, pois há muito conhecimento envolvido, de simulação, de design específico de jogos e de pedagogia. Mas tendo estas bases poderemos criar produtos inovadores e evitar a mediocridade que grassa na maioria dos jogos pedagógicos, que, por não serem interessantes do ponto de vista do jogo, nunca irão cumprir o seu objetivo educativos. 

Tenho abordado estes assuntos também no meu canal de Youtube dedicado aos jogos de tabuleiro, onde podem encontrar vídeos que abordam estas e outras questões. Podem ver exemplos de jogos e das suas mecânicas, as relações operativas entre os modelos e as realidades que pretendem simular. Podem aceder ao canal “Jogos no Tabuleiro” em: Youtube.com/c/jogosnotabuleiro

O mundo dos jogos analógicos é inesgotável. Domina-los pode ser útil até para criar de outros jogos, incluindo os jogos digitais, que são uma indústria imensa neste momento. Pois, antes de construir o jogo final, convém fazer protótipos de baixa tecnologia. Por isso e não só, os jogos de tabuleiro, ditos analógicos, continuam a dar cartas. 


Texto publicado no Diário de Leiria.


Devem os pais ficar contentes pela entrada dos filhos no ensino superior?

Estava eu muito bem a divagar pelo Facebook, como num zapping pela vida alheia, e deparo-me por uma quantidade enorme de publicações sobre as novas colocações no ensino superior. Eram principalmente os pais a fazer publicações de excertos fotográficos das colocações e a fazer identificação dos seus petizes e afins. 

Parece-me positivo isto continuar a ser um motivo de orgulho. No entanto, afinal, para que serve um curso superior? Muitas profissões dependem desses cursos, e existe ainda uma certa consciência de que o conhecimento que se obtém nas instituições de ensino superior pode ser útil também para empresas e instituições, que assim ganham valor. E com razão, porque, no fundo, os cursos superiores servem para aceder ao conhecimento. Podem formar bons profissionais ou não, mas devem, forçosamente, ensinar a pensar. 

Muitos dirão que importa é saber fazer. Com certeza que sim. Precisamos das coisas feitas no nosso dia-a-dia, mas só somos o que somos, como espécie, porque aprendemos e criamos, descobrimos e inventamos. Caso contrário ainda estaríamos a viver nas árvores ou nas cavernas. Se estivéssemos sempre a fazer a mesma coisa nunca teríamos chegado onde estamos hoje, embora pudéssemos ter ido já bem mais longe. Poderíamos ter aspirado a isso se tivéssemos mais conhecimento, ter feito enquanto compreendíamos o porquê das coisas e do que fazíamos. 

Nas universidades ensina-se a pensar, lá proporcionam ferramentas para compreender o porquê das coisas. O que não significa que todos usem depois. Alguns ficam apenas pela sua instrumentalização prática, pelo que dificilmente poderão inovar. A grande diferença do conhecimento prático e abstrato é essa. A pratica sabe como se faz, a teoria tenta compreender porque se faz e como se poderia fazer diferente. Com isto a teorização está sujeita ao erro, porque só a religião é certa nos seus dogmas. A ciência é imensamente falível, e é pelo erro que ela própria se desenvolve. Da teoria à prática e vice-versa. 

Outro erro da análise que quero esclarecer, pois pode ter ficado essa ideia, é que a teoria não é oposta da prática, embora a prática possa ignorar a teoria. As teorias pretendem sempre obter validação prática, mesmo nos casos mais conceptuais. Teorizar será visto como uma inutilidade apenas para quem tem défice de conhecimento. Há um mínimo necessário para compreender o seu valor. Apesar da teoria não poder viver sem a prática, a prática pode viver sem a teoria, embora viva mal e se restrinja assim à inovação. Imensas pessoas sabem na prática como se faz uma coisa, mas não se sabem porquê. Sem essa compreensão inovar é um arriscar imprevisível.  

Por isso devemos ficar felizes por tantos jovens estarem a entrar no ensino superior, pois muitos deles vão ter a oportunidade de compreender os porquês.  Alguns deles poderão então ajudar a nossa sociedade, e até a humanidade, a ir além dos seus limites atuais. Não serão todos, mas pelo menos alguns estarão preparados para isso, para benefício geral. 


Texto publicado no Diário de Leiria.


Transformar as entradas das escolas em pontos de socialização e colaboração

As aulas começaram, e para toda a comunidade escolar será um desafio sem precedentes. Pouco sabemos como será na prática, todos os procedimentos e logística. Nós, os pais, iremos aprender também. Será um desafio coletivo que só poderá ser superado com colaboração. 

O processo de “levar as crianças à escola”, enquanto ainda não são jovens autónomos, é um momento importante do dia para todos. Demasiados pais têm de levar os seus filhos à escola de automóvel próprio, algo que demonstra bem a fragilidade dos nossos sistemas de transportes e ainda mais a sua insustentabilidade. Mas mesmo para quem usa o automóvel, pelo menos uma parte do percurso deverá realizar a pé. Nesse processo de ir a pé, até ao portão, acontecem oportunidades únicas de interação e socialização que têm sido desvalorizadas ou ignoradas. 

Poucas são as escolas que permitem aos pais entrar nos seus espaços, e agora ainda menos serão em tempo de pandemia. Mesmo que não se possa entrar, as zonas imediatamente envolventes deveriam estar devidamente planeadas para o encontro social. Isto é uma realidade em muitos poises europeus, onde em frente às escolas existem pequenos jardins, espaços públicos de qualidade onde as crianças podem estar mais uns momentos, umas com as outras, enquanto os pais, professores e outras pessoas ligadas à comunidade escolar interagem, com qualidade e segurança. 

Tive oportunidade de ver isto acontecer em alguns países, especialmente em França. E tive a sorte de ter uma escola perto da minha residência aqui em Leiria onde isto acontecia, onde os pais podiam entrar numa parte do recinto escolar, onde havia um parque infantil. Era um momento valioso de transição, onde pais conversavam, falavam muitas vezes de projetos coletivos escolares, enquanto as crianças brincavam. 

Precisamos urgentemente destes espaços. Agora mais que nunca. As relações sociais, o mútuo apoio, são das maiores riquezas que podemos ter para ultrapassar os desafios do futuro, mas são precisos espaços que as favoreçam. Por isso, um plano de tratamento urbano das frentes de escola seria imensamente valioso. Os efeitos seriam tanto imediatos como a longo prazo, benéficos para toda a comunidade. Mais do que preparar o espaço imediatamente à frente das escolas para automóveis, precisamos de espaços para nos humanizarmos e socializarmos, para darmos o exemplo às crianças do valor da cooperação e harmonia social, onde existe espaço para nos aproximarmos em segurança.  

Se os próprios pais não se conhecerem, não conhecerem os colegas dos filhos, os professores e todas as pessoas que trabalham na escola: a escola fica aquém de todo o seu potencial. Faltam espaços em que isso possa acontecer, ainda que não seja dificil garantir essa realidade. Bastava um passeio mais largo, com uma árvore, uma vedação que proteja dos automóveis, medidas de acalmia de tráfego, algum mobiliário urbano confortável, uma sombra, um apontamento artístico urbano, um elemento interativo. Coisa pouca perante tanto investimento público que se faz, por vezes a exibir luxo. 


Texto publicado no Diário de Leiria.


Continuar com A Busca pela Sabedoria

Há 11 anos tive a ideia de começar a registar e resumir as ideias das coisas que ia lendo e vendo. Surgiu assim o blogue “A Busca pela Sabedoria”, disponível em www.abuscapelasabedoria.blogspot.com. Foi uma ideia algo ingénua, especialmente quando constato que as minhas aptidões estavam longe de garantir que o resultado tivesse interesse para terceiros. Escrevia mal. Hoje quando vou rever alguns desses textos dou por mim a pensar: “mas como raio fui escrever isto na altura e nem me apercebi dos erros e da confusão da construção frásica”. 

Quem inicia um projeto de escrita tem sempre uma dose de ingenuidade e loucura, quiçá inconsciência e ilusão. Estamos convictos de que podemos fazer coisas relevantes e de que os outros se vão curvar à nossa genialidade. Mas, salvo muito raras exceções, nem somos geniais nem os outros têm a disponibilidade para tal exercício. Para além disso estamos plenamente convencidos que os nossos amigos, familiares e pessoas que nos são mais próximas serão os nossos maiores fãs. Nada disso, na melhor das hipóteses vão ignorar e evitar confrontar-nos com a nossa própria mediocridade, enquanto consomem outros conteúdos. Não fazem isto por mal, faz mesmo parte da condição humana. O que está perto é sempre menos cativante, mesmo que seja igualmente interessante. Faz parte dos processos implícitos de inovação próprios da nossa espécie.

Passados mais de 10 anos desde o início da minha aventura pelos blogues, e que ocorreu praticamente em simultâneo dos meus primeiros textos de opinião em jornais locais e reginais, posso ensaiar algumas conclusões. Tentando ser realista, sou forçado a concluir que o fruto deste trabalho apaixonado – porque foi feito voluntariamente por prazer – poucas vezes descolou da mediocridade, com apenas um ou outro rasgo que não foi além do mediano. Eram apenas mais uns textos entre tantos outros. A maior utilidade disto tudo pode ser resumida em: prática. Ao lutar contra a mediocridade latente da minha criação tive, forçosamente, de tentar melhorar, em exercícios contínuos que me ajudaram posteriormente noutras tarefas. Posso também especular que terão tido utilidade para terceiros, que ao lerem o que eu escrevia se iam inspirando para fazer melhor. 

Os blogues parecem voltar a estar na moda, depois do decaimento causado pelas redes sociais e pela massificação dos conteúdos vídeo. Um número considerável de pessoas voltou a reforçar o interesse pela leitura na internet, nestes formatos interativos, mas de texto mais longo. Parece que não nos conseguimos desligar da pureza das palavras livres. Hoje até os vídeos de amadores são socorridos por esse auxiliar poderoso de comunicação. 

Por isso vou continuar a escrever, como forma de exercício de treino e reflexão, ordenando a desordem da informação que jorra de todas as fontes. Na era da informação instantânea e interativa urge ainda mais a necessidade de transformação de informação em conhecimento.  Foi principalmente isso que encontrei na escrita, a ordem sobre o caos e imensidão, uma tarefa nunca concluída e que alimenta a vida. 


Texto publicado no Diário de Leiria.

O ano só recomeça depois de agosto

Escrevo estas palavras com o olhar divido entre o computador e o horizonte, recortado entre os cumes das serras verdes que contrastam com o céu cinzento. O tempo está estranhamente frio, ventoso e escuro para este mês de agosto, mas para mim, apesar de tudo, as férias são neste mês.

Para mim o ano começa realmente em setembro. É assim há décadas, desde que vivi os meus primeiros anos letivos. Por isso a passagem de ano civil sempre me fez pouco sentido. O ano acabava depois das férias de verão, depois dos meus familiares que viviam em França voltarem, depois de provar o sabor do mar da região e do sol que dava lugar às noites quentes e silenciosas, mas que se interrompiam pontualmente pelas festas de aldeia cuja música passei a apreciar cada vez menos. Contudo as férias, para mim, continuaram sempre a ser em agosto, mesmo depois de começar a trabalhar, mesmo naqueles anos em que laborava todo o mês para poder ganhar algum dinheiro antes de voltar às aulas, talvez por isso custasse tanto aguentar aquele tempo fechado numa fábrica.

Mesmo depois de ter começado a trabalhar permanentemente, agosto continuou a ser mágico. Reservei sempre, no mínimo dos mínimos, uma semana para dele desfrutar, reativando memórias antigas. Pois era também o mês em que estavam de férias com os meus pais, habituados à interrupção laboral do ano, quando as fábricas fechavam e os operários tinham um vislumbre do que seria uma vida menos dura. Como filho deste mundo laboral industrial agosto era também o mês da pausa obrigatória, feita por questões de planeamento e eficiência. Era sempre um recomeço produtivo.

Como nos últimos anos andei próximo das escolas e universidades, quer a estudar quer a trabalhar, esta relação com um agosto de interrupção reavivou-se, com novas intensidades. Agora também entram em jogo as férias dos filhos, ritmadas pelos seus próprios andamentos. Apesar da minha família direta já ter voltado de França, herdei uma nova em diáspora. Voltei a recordar a emoção do mês de agosto, do reencontro e dos momentos únicos em espaços que temporariamente se transformam. Voltei, pela minha esposa, a experimentar o ambiente rural, pois hoje a cidade está cada vez mais perto da minha aldeia de origem, cada vez mais um subúrbio. Mais tarde ou mais cedo, a cidade, na sua forma menos densa, lá se irá impor. 

O tempo lá fora continua estranho ao que costuma ser agosto. A pandemia impede os hábitos de convívio, tudo ficou mais distante e condicionado. Até vou sentir falta das festas que habitualmente não aprecio. Aqui na vila que me acolhe por esta altura as coisas continuam a ser vividas a um ritmo mais lento, somente interrompido em agosto, por todos os emigrantes que retornam. Mas aos certo ninguém sabe como será. Vive-se um pouco na expectativa, tentando levar a vida com a normalidade possível.

Apesar de tudo, agosto continua a ser um mês augusto, um mês magnifico. Sem essa pausa seria dificil passar por todos os outros meses, avançar com os anos e ver o mundo a envelhecer enquanto nos reflete.


Texto publicado no Diário de Leiria  

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Redundâncias da Actualidade - criado em Novembro de 2009 por Micael Sousa





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