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sábado, 15 de fevereiro de 2020

A ignorância e a ascenção do Chega

A ascenção do Chega resulta de dois tipos de ignorância: a dos outros políticos pelo que fazem e a dos eleitores pelo que não fazem.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Uma evitável Democracia desinformada

Acreditava-se que quando as sociedades fossem democráticas poderíamos ter espaço de igualdade e liberdade, que poderíamos transitar de um sistema tendencialmente representativo para modelos onde os cidadãos se envolvessem mais nos assuntos cívicos. Esperava-se que a transição fosse gradual e progressivamente geradora de governos onde todos os cidadãos pudessem ser integrados, pois todos teriam o mínimo de competências e discernimento para tal. Esperava-se que com tudo isso, com a melhoria das condições de vida gerais e da elevação dos níveis de educação, uma sociedade mais justa emergisse. Era mais ou menos assim a utopia democrática.

Estaremos apenas a viver um momento de crise antes que os sistemas democráticos se aproximem destes objetivos ou estamos perante uma falência generalizada do modelo? Isto parece muito negativista, no entanto uma dose de realismo é necessária para construir o otimismo democrático que necessitamos. Chamam-se aos movimentos de manipulação política com sucesso eleitoral: populismos. Parece-me uma designação infeliz, pois parte-se do princípio de que a ignorância e o egoísmo são o caminho para a popularidade política entre as populações. Ou seja, de que a população só é mobilizável por emoções negativas, sem outras alternativas.

Sabemos que as emoções negativas são poderosos estimulantes para a ação política. Poucas foram as revoluções sem essa génese. Os jornais vendem mais quanto piores as notícias. Exemplos não faltam. No entanto tudo são construções sociais, que nos influenciam individualmente, mas que também podemos influenciar. É uma questão de consciência, vontade e ação. No entanto, caso nos esqueçamos, por ser algo intrínseco ao nosso modo de viver e pensar, vivemos uma sociedade consumista e hedonista. Onde consumimos por prazer e como forma de ser. São incontáveis as múltiplas formas que nos são proporcionadas para atingir o prazer. E isso tem sido uma forma de evitar, pelo menos nos países mais desenvolvidos economicamente, totalitarismos e extremismos. Mas a nossa sede por mais é insaciável e um mundo inteiro parece não chegar, tanto que não nos apercebemos que só temos mesmo um planeta. 

Então e não haverá esperança? Creio que sim ainda que não seja fácil. Parece-me que a solução terá de passar por um conjunto integrado e interligado de solução, adaptadas aos nossos tempos. Acusar as pessoas não surtirá efeito. Proporcionar novas formas de combater a ignorância sim. Aprender não tem de ser aborrecido. Assumir uma cidadania ativa também não. Há que conhecer aquilo que cativa as pessoas e usar essas técnicas e designs para outros fins, além do mero consumo e impulsionado pela simples razão de acumular capital. O consumo pode ser mais cultural, mais sustentável ainda que material e servir para acumular uma sabedoria rumo à tal utopia democrática. Temos de ultrapassar o limiar do tédio e do desagradável para a democracia não perecer, garantindo qualidade de vida geral. Sem isso, não há democracia que sobreviva.

 Nota: texto publicado n Diário de Leiria

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Pensamento político do dia #1

O ódio que o Livre está a gerar é a prova de que faziam cá falta. O mesmo se pode dizer para o PAN, mesmo que já não choquem tanto como as galinhas que defendem, e para a Iniciativa Liberal, que veio relembrar que em política ainda há ideologia, ainda que parva. Até o Chega é útil para percebermos que também é preciso dizer chega a certas coisas, incluindo ao Chega.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Começou a corrida aos votos pelo ambiente

A maior parte dos partidos políticos em Portugal já apresentaram os seus programas eleitorais, embora duvido que o número de leitores seja relevante. No entanto, as máquinas de propaganda vão tentar passar as ideias principais. Com tanta poluição informativa terá de se inovar para passar mensagens, especialmente as políticas. Para já estaremos em plena silly season, ainda mais parva que o costume porque nem temos verão que nos distraia, pelo penos aqui pela zona litoral centro.
Vamos viver o efeito PAN para as próximas eleições legislativas. O PAN, provavelmente, irá crescer. Primeiro porque surge associado a uma tendência internacional, uma vez que até agora não tivemos em Portugal nenhum partido que tenha conseguido assumir a causa ambiental de forma mediática, sem se contaminar com outras ideologias. Depois porque é uma mensagem nova, com novas pessoas e novas formas de estar. Vivemos na era de culto da novidade, em que até as coisas antigas são redescobertas nessa ânsia. Na política tudo nos parece velho, menos o PAN. Há outras novidades, mas essas parecem mera cosmética ou demasiado perigosas.

Vivemos também numa era de micro-poderes, que se mobilizam rapidamente por causas especificas. Pequenos grupos agora, através das tecnologias, mas também do efeito do poder da comunicação e das sociedades organizadas em redes, conseguem reunir, durante períodos curtos, poder considerável. As causas ambientais estão a conseguir mobilizar esses pequenos poderes e as massas generalizadas. A diferença é que a causa ambiental não será uma moda passageira, pois a nossa insustentabilidade não nos vai deixar desligar dos múltiplos problemas ambientais que vamos enfrentar. 

Assim todos os partidos, independentemente da ideologia, vão tentar aproveitar a onda e transformar as preocupações publicas pelo ambiente em votos. Vamos ver partidos liberais a pedir intervenção do Estado para gerir este problema. Vamos ver partidos de esquerda a incentivar a iniciativa privada que garanta mais sustentabilidade. Vai ser uma misturada ideológica para captar todos os votos daqueles se preocupam com o ambiente e estão disponíveis para ir votar.

No entanto, se muitas dessas medidas forem implementadas vamos ter imensos condicionamentos ao nosso modo de vida. Não existe outra forma, pois temos hábitos de consumo insustentáveis, o nosso civismo nem sempre cumpre a sua parte e uma intervenção do Estado irá obrigar a mais impostos. Será que as pessoas que se emocionam pelo degelo estão disponíveis para consumir menos, viajar menos, reutilizar mais e passar a dispensar algumas automatizações tão práticas da vida contemporânea? E estarão as pessoas prontas para pagar mais impostos e taxas ambientais resultantes das propostas que os vários partidos agora nos apresentam? E os partidos estão preparados para esse descontentamento posterior? Ou será que estamos no processo de nos tornar ambientalistas?

Texto publicado no Diário de Leiria

segunda-feira, 22 de abril de 2019

O queremos dos políticos e da democracia?

Vivemos então em liberdade democrática, apesar de todas as falhas que conhecemos. Podíamos dizer que a utopia era a solução, no entanto seria utopia considerar que saberíamos definir que tipo de utopia nos dava jeito. Estaremos então num beco sem saída? 

Acho que não, porque a democracia não é uma obra acabada e totalmente definida, mas um produto em melhoria contínua. Isto só por si é uma posição política, quiçá uma ideologia se alguém a doutrinar. E é segundo este processo, rumo a uma democracia melhor, que devemos questionar sobre o queremos dos nossos políticos e qual o nosso papel em tudo isto. 

Dizem que a meritocracia é um mito instituído apenas para manter as elites dominantes. Dizem também que a igualdade de oportunidades total é impossível. Dizem muitas coisas, os outros e nós mesmos. Isto significa que gostamos de dizer coisas. Aí está um pilar essencial da democracia: queremos fazer-nos ouvir e não penas ouvir o que os outros dizem. Por isso queremos que os políticos nos ouçam, porque sabemos hoje que são pessoas tão banais como nós. No entanto persiste um défice global de disponibilidade para ouvir, acentuado pela crescente vontade de todos quererem falar ao mesmo tempo.

Adoramos narrativas e metáforas.  Os políticos sabem disso e nós por vezes esquecemo-nos. Mas na prática queremos mais que uma boa história. Queremos políticos que nos ouçam e façam o que lhes pedimos, mesmo quando não sabemos o que queremos. É um paradoxo, porque queremos mais do que as condições básicas de vida. Desejamos coisas muito mais complexas, sem limites como dizem os economistas, querendo-as independentemente dos recursos que este nosso mundo nos oferece, tal como nos alertam os ambientalistas. E queremos tudo agora, porque duvidamos do amanhã.

Assim, qualquer pessoa que ouvisse, fizesse a vontade dos cidadãos, mas tivesse uma noção dos limites do possível, seria um bom político? Talvez fosse uma boa base de partida. Mas para ser isso tudo é necessário ter muitas qualidades e competências, algumas indefinidas. Qual será a formas de garantirmos tudo isso? Será através do atual regime político, em que não temos forma de avaliar os políticos e as políticas durante os períodos de governação? Como mudar o sistema de listas fechadas? Qual a segurança do voto se os políticos não seguem claramente linhas de orientação de base que assumem, as chamadas ideologias que supostamente os distinguem? Qual a validade dos programas eleitorais descartáveis na hora da governação? E qual o papel de todos nós na melhoria do próprio sistema político? Podemos ser mais que meros espetadores? Haverá forma de nos envolvermos na governação?

Parece-me que estamos perante um momento de mudança de paradigma político. Sabemos que precisamos de mudar e reformar, experimentar coisas novas, embora não saibamos exatamente o quê, de que forma e como. No entanto começam a surgir algumas soluções que abordarei futuramente. São riscos que a democracia precisa de correr para continuar a evoluir e evitar uma estagnação que a fará morrer.

Texto publicado no Diário de Leiria.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Ideias sobre ambiente e sustentabilidade para o "PS em Movimento"

O Partido Socialista, no qual milito, lançou um iniciativa de incentivo à participação, orientada pelos conteúdos, chamada de "PS em Movimento". Trata-se de uma iniciativa bastante simples. Consiste na possibilidade dos militantes apresentarem ideias, haver discussão dos conteúdos e votação daquelas que serão depois enviadas aos órgãos nacionais, em representação de cada concelhia. Não é nada disruptivo, mas é inovador porque, infelizmente, estas iniciativas são raras. Apesar de ter podia estar presente na sessão presencial que ocorreu em Leiria, não deixei de enviar ideias na área transversal do ambiente e sustentabilidade. Sei que foram apresentadas e debatida, mesmo sem a minha presença. Penso que foi mais um bom exemplo, pois demonstrou abertura para a participação. Independentemente da qualidade das propostas, estas iniciativas são essenciais para tentar evitar as espirais de autodestruição que assolam os partidos políticos. A sessão decorreu em Leiria no dia 1 de outubro.


As Ideias

Eventos e turismo:
• Legislação e regulamentos para sustentabilidade de eventos. Necessidade de avaliação prévia dos impactes ambientais e pegada ecológica de cada evento, e adoção de medidas preventivas de redução de resíduos, emissões e outro tipo de impactes ambientais. Obrigatoriedade de adotar medidas de redução de resíduos, segundo os princípios da economia circular. Compensação da pegada ecológica de cada evento, tendendo para o impacte zero. 
• Legislação e regulamentação para capacidade de carga de utilização turística de monumentos e sítios patrimoniais. Obrigatoriedade de um estudo para cada monumento e sitio patrimonial, atendendo a efeitos de conjunto em cidades e circuitos turísticos formais ou em fase de estabelecimento. Limitação da quantidade de utilizadores e adoção de medidas preventivas de proteção, ao nível da produção de resíduos, das proteções físicas, dos percursos, da prevenção de resíduos, dos acessos a veículos automóveis, da poluição visual e dos próprios comportamentos dos turistas. 


Resíduos urbanos:
• Adoção de sistemas de taxas de resíduos por volumes de produção. Deixar de utilizar o sistema de cobrança de taxa de resíduos em função do consumo de água. Passar para uma lógica de consumidor pagador, num sistema exponencial de taxamento para os elevados consumos domésticos. 
• Sistemas de recolha de menores impactes em zonas patrimoniais e zonas urbanas históricas. Regulamentação e adoção de sistemas de recolha de resíduos devidamente adaptados a zonas sensíveis, onde será necessário adotar sistemas de recolha de menores dimensões e visualmente enquadrados nos ambientes.
• Veículos elétricos para recolha de resíduos. Obrigatoriedade de utilizar veículos elétricos de recolha de resíduos urbanos, reduzindo os efeitos e impactes dos veículos a diesel. 
• Economia Circular. Plano nacional para a implementação da economia circular a todas as atividades.


Recursos Hídricos:
• Poluição de equíferos e linhas de água. Fortalecer as competências e número de operacionais da Guarda Nacional Republicana para a fiscalização e gestão dos recursos hídricos, em conjugação com a APA. Meios para o encerramento preventivo de unidades poluidoras, articuladas com os municípios e juntas de freguesia. Criar ferramentas de registo e reclamação para utilização dos cidadãos e disponibilizar kits de análises de água para os principais poluentes.
• Sistema permanente de análise de qualidade de água. Implementar um sistema em rede, automatizado, de análise da qualidade da água, de modo a cobrir o máximo da extensão das bacias hidrográficas. O sistema deve permitir leituras em tempo real e acesso público à informação.


Transportes e mobilidade
• Programa de incentivo ao transporte público e restrições à utilização do automóvel privado.  Criação de um novo imposto municipal sobre a circulação de veículos automóveis privados que subsidie o transporte público local. Obrigatoriedade em canalizar as receitas do estacionamento local para o investimento no transporte público e na mobilidade sustentável, em sistemas de favorecimento da mobilidade pedonal e ciclável, devidamente articulas e em sistemas conectados.
• Alteração de regulamentos de urbanismo. Impedir novas zonas de expansão ou densificação urbana sem existir previamente acesso funcional a transporte público, devendo haver mapeamento e rede de áreas de influência a este sistema de transportes em cada subzona urbana. Elementos obrigatórios para incluir nos instrumentos de gestão do território. Intervir prioritariamente nas zonas consolidadas não servidas.
• Aposta nos serviços de proximidade. Evitar a excessiva concentração de serviços em zonas de acumulação sem população de proximidade que as justifique, apostando numa descentralização pelo território, aproximando as populações dos serviços públicos, em unidades de menor dimensão, de modo a reduzir as necessidades de transportes. 
• Implementação de planeamento urbano de funcionalidade. Definir número mínimo de unidades comerciais e de serviços de apoio a cada zona, havendo favorecimento fiscal para novas instalações até que os limites das necessidades locais sejam satisfeitos. Conjugação com os instrumentos de gestão do território.
• Horários de trabalho alternados. Favorecimento das empresas, ao nível fiscal, da adoção de horários de trabalho alternados que reduzam os efeitos de necessidade de deslocação em horas de ponta. Incentivo ao trabalho parcial ou totalmente à distância, com necessidades de deslocação pontuais. 
• Incentivos fiscais à mobilidade ciclável. Sistema de registo de deslocações em bicicleta com benefícios fiscais para os utilizadores.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Um distrito não pode servir apenas para eleger deputados



Para que serve um distrito? Afinal, para nós que temos uma relação partidária com a política, e por essa via com a gestão dos territórios, que sentido fazem os distritos?

Os distritos, apesar de poderem ter uma configuração e delimitação territorial pouco adequada, representam a escala de governação intermédia. Existem vários níveis de governação que têm de ser acutelados para que os territórios se possam desenvolver. Não podemos abdicar de um deles, especialmente daquele a que correspondem aos distritos. Precisamos de eleger deputados, mas precisamos de ter um sistema de governação democrática do território nesta escala. Na prática os distritos não podem servir apenas para eleger deputado.

Precisamos de ter uma governação efetiva das regiões. Podem chamar-lhe outra coisa se isso evitar medos. Há determinados projetos que precisam de ter uma escala regional. Uma solução via CCDR, quase sempre tecnocrata, não serve por si só. A CCDR é útil como suporte técnico, mas não é uma solução política. Uma solução de mera divisão de fundos financeiros nas comunidades intermunicipais também não. Necessitamos de projetos políticos acima dos concelhos. E não sejamos ingénuos. Os presidentes de câmara irão naturalmente estar mais motivados para lutar pelo seu concelho que pela região, pois são os seus munícipes que os elegem. Tem de haver relação entre o poder político e o território.

Enquanto não existir uma relação direta cívica e política entre cidadãos e instituições de representação política, com poder para intervir no território, dificilmente teremos desenvolvimento regional sustentável. Sem isso perdem-se oportunidades únicas. Fica tudo demasiado dependente dos municípios, que nem sempre têm escala para garantir a sustentabilidade desejada, ou então as oportunidades regionais ficam nas mãos distantes do governo centralizado. Um exemplo disto foi o Estádio de Leiria. Uma infraestrutura daquele volume não seria, à partida, sustentável apenas para servir um município. Mas se fosse um equipamento destinado a servir toda uma região que ultrapassa meio milhão de habitantes já o caso mudava de figura.

É urgente implementar-se a escala de governação democrática intermédia. Podemos usar esta expressão se tiverem receio do nome regionalização. Para breve teremos as eleições legislativas. Este pode ser um tema a trazer para o debate nacional e distrital.

Nessas próximas disputas eleitorais vamos tentar apanhar todos os votos. Querer agarrar todos os votos instantaneamente pode estar a condicionar o futuro do partido. A sustentabilidade do voto também é importante para quem pense a política com futuro. Não podemos prometer tudo a todos nem assumir projetos que sejam estranhos à nossa matriz de valores e ideias fundamentais do socialismo democrático. Caso contrário viramos marca branca, facilmente substituída por outra qualquer indiferenciada.

Nota: intervenção realizada no congresso federativo de Leiria do Partido Socialista, em 24 de março de 2018.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Começa a época das descolagens políticas

O Verão parece estar a atingir o pico máximo de calor. Portugal está em brasa! Neste momento, apesar das temperaturas elevadíssimas que se fazem sentir, os principais fogos e calamidades parecem estar a acontecer no seio do próprio Governo. As indefinições e instabilidades causadas pelos próprios que se dizem defensores do rigor e seriedade deixam os portugueses em estado de descrédito e choque. Os maus exemplos políticos vindos da elite governativa transformam o exercício do poder e da política em atos de chacota pública, desencadeadores de convulsões revoltosas e ódios, tão funestos para a imprescindível coesão e empatia social que precisamos alcançar para descolar desta crise das crises.
A convulsão nacional vem no momento em que as pré-campanhas autárquicas arrancam. Será coincidência? É difícil de perceber o que é estratégia e o que é simplesmente falhanço e incompetência. De qualquer dos modos, a ação do atual Governo tem contribuído para minar a já pouca confiança dos portugueses no exercício da política. Poderá ser mero acaso, mas isso não minora os impactos para as eleições autárquicas de 29 de Setembro, ao fazer aumentar uma já clara aversão dos portugueses para com a política formal.
Novamente, por acaso ou não – qual acaso dos acasos –, os partidos a nível local, especialmente aqueles que apresentam candidatos militantes nos partidos que os apoiam, parecem fugir dos próprios logótipos e cores tradicionais. As mensagens tendem também a ser esvaziadas de qualquer ideologia que poderia ajudar à decisão política. Isso acentua-se mais no caso do PSD e CDS-PP, mesmo em municípios onde isso antigamente seria um ponto forte.
O que não é acaso é a tentativa de descolar das responsabilidades do Governo, com o próprio Primeiro-Ministro a tentar descolar das suas próprias responsabilidades pela vinda da Troika, quando ainda era líder de oposição e fez chumbar o PEC4. Na campanha pelas freguesias a tentativa segue pelo mesmo rumo, evitando ou culpando outros pela atabalhoada reforma da administração local que só serviu para extinguir freguesias sem qualquer ganho justificável. 
No tempo que ai vem, com o calor a apertar, a tendência será para forçar o descolar das responsabilidades dos próprios e das suas famílias políticas, tentando colar remendos e mensagens à pressa para evitar as catástrofes eleitorais de alguns.

Texto publicado no Diário de Leiria e Jornal de Leiria

domingo, 16 de setembro de 2012

15 de Setembro de 2012: A Mudança de Paradigma Político?


O dia 15 de setembro de 2012 foi marcante. Não foi a primeira vez que estive numa manifestação, e muito provavelmente não será a última. No entanto, nunca tinha participado numa assim. Foi quase surreal ver, no mesmo espaço, e movidas por sentimentos semelhantes, tantas pessoas diferentes, de estratos sociais, idades, e orientações cívicas/políticas/ideológicas. Para uma cidade pouco dada a movimentações  e manifestações sociais desta natureza, foi um momento para recordar a marcha pela Avenida Heróis de Angola!

Independentemente da contestação em causa – o reclamar pela austeridade continuada e cega que contribuirá para um decrescimento muito acentuado da qualidade de vida generalizada em Portugal - e independentemente do urgência e drama social nacional - que não é obviamente de diminuir -, dia 15 de setembro os portugueses demonstraram a si mesmos que são uma força viva, e que se conseguem mobilizar por causas abrangentes. Provavelmente, de futuro, a sociedade irá mudar no modo como encara a cidadania ativa e a política no seu sentido mais puro, como um ato colético de autogoverno social. Provavelmente este foi um reflexo evidente de que o paradigma político está a mudar, que o sistema de representação político tem de ser ajustado aos novos tempos e que os cidadãos irão querer participar mais politicamente. Eu pelo menos espero que isso seja verdade e aconteça de facto, para nosso bem (coletivo)!
Quando 10% da população sai propositadamente à rua o mínimo a que nos obrigamos é à reflexão!



sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Governos Incoerentes – Os Novos Neoliberais

Com as novas medidas de austeridade não há hoje português indiferente aos que nos governam. Pelo menos, no final do mês, quando sobressair o corte na folha de vencimento - para quem a tiver -, há garantia de um mau estar coletivo, de tendencial revolta, para com a ação dos dirigentes políticos.

Pensando nas medidas recentemente anunciadas propriamente ditas, podemos fazer várias leituras políticas mais conceptuais. Há várias tendências políticas – para não lhes chamar “ideologias”, pois isso intimida muito boa gente – com soluções diferentes para o caso dos défices das contas públicas e para a crise. Haverá quem defenda o aumento das receitas e quem defenda a redução da despesa, ou então um misto ponderado de ambas as alternativas – pessoalmente, aquela que me parece mais equilibrada e adequada, mas que exige mais esforço informativo, organizativo e estratégico. Teorizando ao de leve, é difícil de enquadrar politicamente a opção deste Governo. Digo deste especificamente pois todos sabemos que se trata de uma Governo de Direita que defende uma visão neoliberal de “Estado Mínimo” - menos intervenção, menos sector empresarial público, menos peso e responsabilidade pública na saúde, educação e ação social, e menos outras mais coisas importantes -, acompanhado da redução da carga fiscal. Depois das notícias que ouvirmos – e parece que mais ainda virão -, é difícil de encaixar a teoria com a prática governativa. É mesmo chocante! Foi o próprio atual Primeiro-ministro (PM) que disse, em tempos passados, que a economia funcionaria muito melhor se estivesse menos restringida por impostos e burocracias, com um estado “ágil e leve” – a velha teoria liberal da “mão invisível” de Smith que autorregularia e salvaguardaria a eficiência os sistemas económico-sociais. Por mais que custe a admitir, mesmo que o Governo quisesse seguir essas políticas de fundo – novamente uso este termo para evitar o recurso à temida “ideologia” – a Troika provavelmente não deixaria. No entanto, se recuarmos pouco mais de um ano, veríamos o atual PM a forçar o PM da altura, por falta de apoio parlamentar ao Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC) 4, a criar as condições para que a tal Troika tomasse conta do país.
Então afinal a culpa é de quem? Dos que estiveram, dos que estão ou dos que virão? A culpa seguramente é pelo menos dos dois primeiros, sendo a percentagem de cada um discutível. O que não é admissível é desculparmo-nos também da nossa responsabilidade cívica. É nosso direito e dever contribuir para a governação política, nem que seja demonstrando descontentamento, alternativas e que queremos outras soluções!
Texto publicado no Jornal Tinta Fresca

domingo, 2 de setembro de 2012

Sair do retângulo para ficarmos menos quadrados


Em Plena “Silly Season” ou “la morte-saison”, como dizer anglo-saxónicos e francófonos respetivamente, Portugal está longe de parar. Quando muitos estão de férias outros trabalham ainda mais afincadamente. Muitos espaços e atividades encerram ou cessam completamente, mas muitos outros funcionam a todo o vapor.
O setor do turismo é um daqueles que tenta nesta altura superar a crise. A propósito disso, foi dito aos portugueses para passarem férias cá dentro. A ideia, à primeira vista, parece acertada e consensual, pois é evidente que estimula a economia interna, mantendo divisas no país. Mas, ao transmitir essa ideia, arriscamos perder algumas oportunidades indiretas de desenvolvimento. Por exemplo, seria interessante defender também que: viajar para o estrangeiro poderá trazer mais-valias ao país. Sair da realidade nacional, carregada de um manto de cinzentismo, poderá ajudar a conhecer novas realidade e ideias. Nessa novidade existe a oportunidade de recolher boas ideias e exemplos, tal como reconhecer os maus de modo a evita-los e continuar a apostar naquilo que nos distingue e somos bons. Ficarmos fechados sobre nós mesmos pouco ou nada ajudará. Boas ideias e exemplos inspiradores não têm preço. Conhecer o mundo é essencial para podermos mudar a aparente e imutável realidade em que vivemos. Pena é o acesso a viagens instrutivas ser restrito, pois, ao contrário das boas ideias, viajar tem um preço alto.
Assim, parece-me completamente errada a ideia de “quase obrigar” também todos os membros do governo a fazer a totalidade das suas férias por Portugal. Se alguém precisa urgentemente de novas ideias e de procurar novos exemplos são os nossos governantes. Que pena não aproveitarem alguns dias de férias lá fora, atendendo a que a sua situação financeira é tendencialmente mais desafogada que a da maioria dos portugueses, para viajar e procurar boas ideias – mesmo que não sejam somente turísticas – para os pais. Também de férias se pode trabalhar, ainda que de um modo diferente.
 Este texto, tal como a época em que é escrito, tem muito de “silly” - ou, em português, de parvo(a). Tem também algo de esperançoso, tentando reforçar para a necessidade de procurar bons exemplos, “saindo da caixa” ou, neste caso, do “retângulo” para voltarmos menos “quadrados”.

Texto publicado no Diário de  e no Jornal de Leiria

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Morreu José Hermano Saraiva mas fica a sua História

Pela avançada idade de José Hermano Saraiva a notícia da sua morte é encarada como um evento inevitável, no entanto quando alguém nos entra por casa através da televisão durante tantos anos ficamos ainda assim tocados.  Cerca de 40 anos de não podia deixar de ter os seus efeitos nos telespectadores, e os programas de José Hermano Saraiva tiveram muito. 
Pela sua própria história, José Hermano Saraiva terá, seguramente, admiradores e detractores. Pessoalmente confesso que quase me choca a relação e admiração que tinha para com o ditador e o Estado Novo - ou não tivesse sido deputado e ministro nessa época. As posições ideológicas podem fazer afastar os mais democratas do célebre historiador português. No entanto, tal como muitas outras figuras das História, a complexidade da personalidade de cada um, com as suas múltiplas facetas e atividades, pode de determinados pontos de vista e para cada vertente haver leituras e simpatias diferentes.No caso de José Hermano Saraiva desta-se o papel de Historiador de Televisão. Ou seja, alguém que tenta fazer levar a História à televisão para os grandes públicos. Não consta que tivesse sido um brilhante historiador do ponto de vista técnico ou académico, mas foi seguramente um dos melhores - se não mesmo o melhor - a comunicar História. A sua ação foi imensa e o seu mérito sem precedentes no modo como conseguiu levar a História a um público muito vasto e como conseguiu despertar nesse mesmo público um interesse por um assunto pouco habitual. Mesmo aqueles que consideram a História como algo chato e pouco útil reconheciam o mérito e interesse da personagem.
Assim, penso que José Hermano Saraiva ficará para a História de Portugal como alguém que muito fez pela própria disciplina utilizando a tecnologia de comunicação de massas do seu tempo: a televisão.
Como apaixonado por História não podia deixar de assinalar aqui, mesmo que ao meu jeito atabalhoado e redundante, estas personalidade do século XX Português, ele próprio parte da nossa História coletiva. Que  História, os Historiadores, e o conhecimento geral o recorde e com ele aprenda.

Então também fico sem subsídio?

Parece que afinal o corte dos Subsídios de Férias e Natal para a função pública é inconstitucional. Se o era ou não só os especialistas o saberão, mas que nunca aparentou ser justo ou equitativo era evidente - legalismos à parte. O assunto do corte dos subsídios, quanto a mim, vai forçar todos os cidadãos à reflexão sobre a problemática em causa e as dificuldades - ou oportunidades como dizem alguns - daí decorrentes, especialmente as de âmbito social.
“Demonizou-se o funcionalismo público”, sem a tolerante capacidade para perceber as suas funções, características e limitações. Ou seja, trabalhar no sector público tende a ser menos valorizado do que trabalhar no sector privado. Então, mas como pode ser pouco importante quem trabalha para cuidar do que é de todos? Culpa das generalizações negativas? Há muito que deveríamos ter tentando compreender a diferença, dando tratamento adequado e devidamente conjugado com uma igualdade que respeite o particular. Sem isso, todos perdemos e ficamos longe de melhorar ou evoluir.
Agora, com a ilegalidade do corte aos funcionários públicos, o Governo, de modo a cumprir a execução orçamental, tem várias possíveis opções: ou alarga a medida a todos os trabalhadores (do sector público e privado os cortes), ou cria novo mecanismo de sobre taxação/coleta de receitas.
O corte nos vencimentos é catastrófico - se a economia falasse penso que não diria melhor. Mas cortar apenas em alguns é igualmente catastrófico do ponto de vista das relações sociais. A pouca empatia social que existe em Portugal corre o risco de desaparecer de facto.
Apesar de tudo, com a possibilidade de todos perderem parte do seu vencimento, provavelmente, as dificuldades alheias passam a ser mais facilmente compreendidas, pois passam a ser generalizadas. Apesar de tudo cria-se empatia social, não por reforço e desenvolvimento cívico e cooperativo mas pela força do corte, da repressão e da imposição que leva à incompreensão. Os fins podem não justificar os modos e os meios.
O corte dos subsídios pode ser geral, para mal de todos nós! Se isso acontecer é certo que ninguém ficara indiferente às dificuldades que só alguns agora já sentem. Será que aprenderemos a colocarmo-nos no lugar dos outros? Talvez sim, pois passámos a ser todos tendencialmente iguais, ou talvez não…

Texto publicado em Julho de 2012 no Diário de Leiria e no Jornal Tinta Fresca

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Consensos sem Encenações Políticas


Se “todo o mundo é um palco, e todos os Homens e Mulheres meros atores, com vários papéis ao longo da sua vida”, pelo menos atendendo às palavras de Shakespeare, existem muitos papéis sociais, em constante mutação, para todos nós ao longo da nossa vida.
Na política, porque depende do modo como comunica, recorre-se às metodologias e prescrições da expressão dramática. As técnicas dramáticas e cómicas conseguem passar todo o tipo de mensagens, incluindo as políticas. Quando se monta um bom espetáculo é possível levar o público à reflexão e à emoção. Mas será legítimo transformar a política numa atuação?
Que dizer daqueles políticos, com papéis tão diferentes e distintos ao longo da sua carreira, para quem o certo e o errado dependem do papel que encarnam no momento? A coerência nem sempre é seguida, e a ética e integridade, por vezes, vão perdendo significado nas práticas do dia-a-dia.
Quando os papéis políticos são assumidos sem coerência e sem a devida preparação, a atuação tende a ser desempenhada ao jeito das artes circenses. Essas falhas costumam ser disfarçadas com malabarismos e ilusionismo políticos, baseados na desinformação.
Por outro lado, a influência das várias culturas/ideologias políticas poderia dar a necessária base e estrutura ao exercício da política, no entanto essa é uma escolha trabalhosa, que exige estudo e saber, e de difícil exequibilidade. 
Há então que ultrapassar o “sim ou não” perentório. Urgem medidas e métodos de fomento do trabalho em equipa, criando compromissos e consensos a longo prazo. Falta-nos a estratégia de fundo que nos poderia levar a novos estágios de desenvolvimento.
Na primeira democracia – a de Atenas - encontrou-se um modo de evitar as intervenções políticas vazias e inúteis: os cidadãos/políticos que apresentassem propostas sem reunir uma percentagem mínima de apoiantes, independentemente das fações, pagavam multa!
Não precisamos de mais leis nem multas, precisamos simplesmente de mais ética e espírito cívico para optar racionalmente, sem coerção e fazendo concessões, pelo que for mais útil para o coletivo. A concordância total entre todos é uma utopia, mas a responsabilidade cívica obriga a que tentemos chegar a alguns consensos.

Texto de opinião publicado no Jornal de Leiria em 7 de Junho de 2012

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Manobras de oposição (ou de diversão)


Um dia ouvi um conhecido ator dizer, em tom sarcástico, que agora existiam atores por todo o lado: atores sociais e até atores políticos. Estas palavras podem dar que pensar. Não serão alguns políticos (maus) atores de facto? 
Para muitos políticos os seus papéis mudam ao sabor dos ventos do momento - o que ontem era mentira hoje passa a ser verdade, e vice-versa. Um certo ato, que ontem bem podia ser detestável, hoje passa a ser normal e correto. A coerência nem sempre é seguida, e a ética e integridade não são mais que palavras belas em desuso e sem utilidade prática no dia-a-dia político.
Ainda se os papéis dos assumidos atores políticos fossem bem estudados, e a atuação em causa devidamente fundamenta, não haveriam tantos exemplos negativos para as comuns generalizações. Essas falhas, normalmente, são disfarçadas com malabarismos políticos e muita desinformação. Mas, como sempre, quem mais sofre é quem menos culpa tem, ou seja, neste caso: os cidadãos que se tornam num público sujeito a fúteis atuações. Não admira que se ouçam os apupos aos tristes espetáculos: “os políticos são todos iguais”. Falta verdade, pelo menos a verdade, devidamente fundamenta e em coerência, de cada um.
Quase nunca esses atores políticos seguem ideologias políticas definidas, quase sempre a opção é o sim ou o não, vazios e ocos de utilidade. Mesmo o elogio, como a crítica, poderiam ser úteis se viessem acompanhados de propostas, de projetos e de ideias.
A vida política em Leiria não é exceção. À escala local replicam-se os maus vícios e hábitos da vida política nacional, só os palcos para os atores e malabaristas políticos são mais pequenos. Mesmo à nossa dimensão poderíamos, e aqui falo também em autocrítica, ser mais construtivos. Confrontamos ideias ou apenas elogios e escárnios?
Em Leiria, como em outros locais, a história encarrega-se sempre de expor e divulgar como atuaram os políticos. O próprio presente se encarrega de demonstrar o estado da coisa pública, e no nosso caso é uma atualidade hipotecada. É contra a imposição e a ditadura da pesada dívida que temos de lidar – a financeira mais evidente e a cultural mais impercetível. Por mais malabarismos, atuações e performances circenses, por mais bela que seja a conjugação das letras, os números, em forma de milhões negativos, tornam clara a realidade. Por melhores que sejam essas performances, a realidade não pode ser mudada pela pena de qualquer papagaio político.
Felizmente, ainda há, por Leiria e pelo país fora, quem tenha o otimismo e a vontade de mudar essa realidade, assumindo a dificuldade do ato, e tentando-o fazer de um modo franco, com ideias e propostas concretas que respeitem os cidadãos e o próprio futuro coletivo.

Texto de opinião publicado no Diário de Leiria em 1 de Junho de 2012

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Aprender cultura política à força – A ação governativa


Há muito que as principais tendências pedagógicas desincentivam o ensino com recurso a métodos mais violentos, já para não dizer que os condenam em absoluto. A alternativa tem sido, de um modo simplista, o reforço positivo e afins. E, em muitos casos, ainda bem. Pelo menos isso poderá ser um modo de criar um novo tipo de consciência e empatia social. No entanto, tal como todas as teorias, há sempre que as possa contestar, ou então advogar que não são válidas para todas as realidades.
Em Portugal existe cada vez mais informação à disponibilidade dos cidadãos (contabilizando os Media tradicionais e agora a Internet), mas nem sempre existe a devida formação para lidar com ela. Esses défices de formação nem sempre se relacionam com formação académica. A lacuna prende-se mais com a cidadania e o próprio espirito cívico, na sua relação com os conhecimentos, mais ou menos técnicos e específicos, das várias áreas do saber de interesse comum. Somos recorrentemente alvejados por quantidades imensas de informação – agora muito especialmente por economia e gestão pública – que muitas das vezes se tornam incompreensíveis. Muitas vezes, sem nada mais que o senso comum, somos levados a compreender e ajuizar toda essa panóplia de informação pela parte, pelo aquilo que as nossas limitações nos permitem compreender no imediato. Afinal, que tipo de opinião pública estamos a criar? Opinamos bem? Se calhar não, se calhar poderíamos opinar melhor se tivéssemos a devida formação, abrangente e geral, para que pelo menos evitássemos a infecundidade de uma indignação vã. Sem a devida informação a confrontação dificilmente poderá dar lugar a uma cívica e ativa edificação.
Entre outros, o preconceito sobre questões ideológicas e tão ou mais evidente em Portugal como em qualquer parte do mundo, e relaciona-se com défices de cognitivos e de perceção. Para evitar alguns ajuizamentos usarei outros termos, por exemplo: “cultura de Esquerda” e “Cultura de Direita”, em vez da temida “Ideologia”. Pelo menos com o termo cultura ninguém se ofende e até permite que se possa aprofundar um pouco mais uma discussão política.
Apesar de recorrer a modelos pedagógicos ultrapassados, as nossas lideranças nacionais estão a contribuir ativamente para a nossa formação em cultura política, e a tornar clara a distinção entre “Culturas de Esquerda” e “Culturas de Direita”. Mesmo assim haverá sempre quem diga que não há distinção entre esquerda e direita - normalmente só alguém de Direita (mesmo que não se identifique como tal para si próprio e para os outros) afirma tal coisa. Realidade incontornável e inegável é o reforço da ação governativa segundo modelos proveniente da “Cultura de direita”, tão inegável que somos com isso confrontados na vida do dia-a-dia. Sabemos que o Estado está endividado, mas uma boa formação política, pedagógica e abrangente, deveria demonstrar-nos que existem outras alternativas, mais otimistas e humanistas, menos “pesadas”. Espero que a Direita ainda seja capaz de algum otimismo, nem que seja com outros atores, com uma abordagem mais estimulante das motivações individuais e coletivas, embora isso possa fazê-la afastar-se de algumas tendências da sua própria cultura política.

Texto publicado no Jornal de Leiria e Diário de Leiria

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Da Assembleia Municipal numa sexta à defesa do ensino para a cidadania numa Sábado pela COES

Ontem ocorreu mais uma sessão da Assembleia Municipal de Leiria onde tive oportunidade de participar como deputado. Desta vez não fui em substituição, fui mesmo como membro efectivo. Poderia afirmar que seria com grande orgulho e satisfação que assumo esse papel, mas, apesar de ser um dever e cargo que me realiza civicamente por o tentar desempenhar como acção cívica, acabo por ficar triste. Fico com pesar por o cargo me ter chegado pelo abdicar de uma amiga, ainda por cima alguém que a meu ver tem dado e ainda teria por dar um grande contributo cívico e político aquele órgão do poder local. O melhor que posso fazer agora é tentar desempenhar esse novo papel, ainda que já o tenha assumido várias fezes como substituto, do modo mais positivo, activo e contributivo, defendendo o que verdadeiramente está em causa: o interesse público como acto de cidadania!
http://balooscartoonblog.blogspot.com/
O dia de ontem acabou tarde. Apesar de ter tentado defender aquilo que me parecia o interesse colectivo, através de sugestões e propostas sobre dois temas distintos, fica-me sempre a sensação, independentemente da sessão e maior envolvimento pessoal, que eu próprio muito mais poderia ter feito e contribuído. No fundo, até penso ser bom não ficar demasiado conformado e tentar exigir sempre mais, caso contrário arrisca-se o marasmo e perder de vista o ambicionado desenvolvimento - que neste caso é local.
Hoje, sábado, o dia começou bem cedo, pois, por volta das 10h00, queira estar em Lisboa para uma iniciativa da da Corrente de Opinião Esquerda Socialista (COES) dedicada à reflexão e debate em torno do passado e futuro do socialismo, tal como do próprio funcionamento e organização do PS enquanto partido político. De início não tinha pensado nem preparado nada para intervir, até porque nas iniciativas da COES pouco tenho a ensinar ou partilhar, tenho sim muito a aprender com os/as camaradas que participam habitualmente nessas iniciativas! Mas, com o desenrolar das intervenções e temas, acabei por decidir intervir. Fiz uma pequena intervenção, como é meu hábito - o mais concisa possível - sobre a necessidade do "educar para a cidadania" ser imperativo no nosso país, pois são imensos os nossos défices cívicos. Referi mesmo que isso poderia ser um das propostas estratégicas de fundo do socialismo: formar e educar cidadãos completos (informados e com capacidade activa) para mais igualdade de oportunidades e coesão social. Falei também da necessidade de reforçar a Democracia, aproveitando as novas tecnologias para uma tendência para ser cada vez mais directa e informada.
Nesse debate da COES, foram muitos os intervenientes - como é hábito - que trataram muitos  e variados assuntos: falou-se muito de ética como valor transversal ao partido e à sociedade; da necessidade de criar modelos económicos do socialismo democrático alternativos ao neoliberalismo capitalista; de abrir o partido aos cidadãos, de reformar e revitalizar a democracia com outros modos mais directos; de novos modelos produtivos; de igualdade de género; e muitos mais.
Foram dois dias cansativos, com horas de trabalho misturadas com participação cívica/política, centenas de quilómetros e um debate de fundo e ideológico. Foram dois dias enriquecedores politicamente, tanto nas questões mais práticas e do dia-a-dia como daquelas mais relacionadas com a ideologia "pura e dura".

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Quando os deputados portugueses discordam de um alemão e dão razão a Thomas Hobbes

Thomas Hobbes
Se hoje Thomas Hobbes fosse vivo e estive atento ao que fazem os parlamentares portugueses diria: eu tinha razão. Hoje, pela intromissão do Presidente do Parlamento Europeu (Martin Schulz) na diplomacia e assuntos externos portugueses, e sua relação com Angola, conseguiu validar algumas das teorias de Thomas Hobbes. Ainda que não concorde com algumas interpretações, especialmente aquelas que dele se servem para demonstrar que a cooperação internacional é difícil ou até mesmo impossível, hoje o célebre teórico político do século XVII, segundo essas mesmas interpretações que me desagradam, teve a sua razão! Pela ameaça externa que foram as palavras de Martin Schulz foi hoje possível na Assembleia da República Portuguesa pôr todos os deputados de acordo, independentemente da sua "cor política".
Bem, que será que precisamos então para a mais concertação? Será que tem de vir mais algum estrangeiro dizer: vá, continuem lá na vossa desunião e incapacidade para trabalhar em equipa, vá continuem lá no buraco!
Hoje um pouco a contra gosto, mas se calhar o velho Hobbes até tem razão...

sábado, 31 de dezembro de 2011

Vai uma prendinha de cidadania para garantir a providência?

A austeridade está ai, mas para o ano será ainda maior. Como responder a isso, especialmente quando o Estado, por via do Governo, deixar de garantir algumas funções que poderiam amenizar ou suavizar esse choque? O atual Governo, devido à crise e pela ideologia em que assentam as suas políticas, tenderá a acabar com a construção de um Estado Providência. 

Como nestas épocas de instabilidade a providência será cada vez mais necessária, provavelmente terá de ser a própria sociedade a encontrar as soluções para as atuais e novas privações. Com a redução do papel de intervenção e garante do bem-estar às populações por parte dos Estados, para garantirmos alguma providência teremos, especialmente em Portugal, de reinventar a Sociedade Providência. Deveremos então voltar ao passado e trabalhar em comunidade, para a comunidade, de modo a garantir um certo nível de providência? No passado isso era possível, por exemplo na construção de habitações, onde toda a comunidade ajudava na construção das casas dos vizinhos. Hoje, regulamentos e leis, que fazem todo o sentido em nome da segurança, qualidade e da redução dos impactes ambientais, patrimoniais e afins, dificultam muita da ajuda do coletivo. Hoje será praticamente impossível fazer uma habitação sem recurso a crédito, pois os prazos de obra não permitem “ir construindo”. Mas, mesmo assim, ainda muito se pode contribuir para uma dita Sociedade Providência, existem muitas maneiras de garantir a imperativa providência e compensar a não resposta Estatal. Não defendo que o Estado e a Administração Local Autárquica devam ser diminuídos nas suas responsabilidades, mas como os financiamentos, por todas as razões e mais algumas, tenderão a ser reduzidos, temos de encontrar alternativas para responder as dificuldades que vão passar muitos portugueses.
Para falar de cidadania, e de a relacionar com a Sociedade Providência, nada como alguns casos práticos para a exemplificar. Um exemplo simples e tangível pode ser: se tivermos um “buraco” na nossa rua, se formos reclamar a quem de direito e não houver dinheiro para reparar, uma solução será, com autorização das entidades responsáveis, fazer uma intervenção em jeito de trabalho voluntário e coletivo entre todos os moradores. Com esta opção dá-se uma lição de cidadania e um exemplo que poderá aproximar os cidadãos dos problemas da gestão pública e contribuir para um maior envolvimento na própria comunidade; dá-se um exemplo de “ir para além das obrigações” em prol de todos. Lembro outro caso recente de demonstração cívica na causa ambiental que poupou fundos públicos e foi para além das obrigações cívicas dos envolvidos: a iniciativa limpar Portugal. Muitos mais exemplos existem, tais como as recolhas de alimentos e outros bens para posterior distribuição. Assim, se seguirmos estes e outros exemplos, quando as coisas melhorarem – temos de esperar e fazer para que melhorem pois insustentável é viver sem esperança – os cidadãos poderão contribuir ainda mais e melhor para uma sociedade mais responsável - esperando que o Estado o seja também -, com mais empatia e capacidade de entreajuda. Nada como fazer para depois poder exigir!
Em jeito de conclusão e alusão à quadra festiva que vivemos: darmos uns aos outros outra atitude cívica e uma cidadania mais ativa será a melhor prenda para este Natal e para um ano novo que se avizinha difícil!

Texto publicado no Diário de Leiria em 22 de Dezembro de 2011

domingo, 18 de dezembro de 2011

Uma conversa sobre cidadania, política e redes sociais na Escola Dr. Correia Mateus

Dia 15 de Dezembro foi um dia de mais uma nova experiência, desta vez numa escola básica do 2º e 3º Ciclo. Já não é a primeira vez que participo numa conferência, debate ou tertúlia como orador, mas desta vez o público era muito mais jovem. Foi a primeira que vez que tive a oportunidade de falar e partilhar alguns supostos saberes e experiências com jovens estudantes, maioritariamente do 8ºano, com idades que devem andar compreendidas entre os 13 e os 15. Quando recebi o convite pela professora Fátima Fortunato fiquei  simultâneo preocupado e motivado. Fiquei um pouco desconfortável pois não era o meu ambiente normal, mas, por outro lado, fiquei cheio de vontade de participar pois seria uma nova experiência ainda mais interessante pelo tema a abordar e tratar.

O objetivo era falar e partilhar experiências sobre cidadania, participação cívica e política, a propósito do Projeto Parlamento Jovem e do tema deste ano: A descriminação nas redes sociais. Com este tema as possibilidades eram imensas, ainda que condicionadas pela necessidade de adaptar a linguagem ao público – um tipo de público com o qual estava longe de estar à-vontade.
O evento, intitulado de “Uma conversa sobre cidadania, política e redes sociais” começou com as boas vindas dadas pelo professor António Oliveira - o atual Diretor do Agrupamento de Escola Dr. Correia Mateus - tendo depois sido a professora Fátima Fortunato a fazer a minha apresentação.
Tendo sido apresentado comecei a “orar” – um termo curioso para um ateu. Comecei um pouco atrapalhado mas depois entrei no ambiente, que era bem agradável, pois deu-se na biblioteca da escola, com os alunos sentados numa espécie de hemiciclo construído com uma disposição propositada das cadeiras para o efeito. Comecei então por sugerir algumas dicas para participar num debate: ouvir enquanto alguém fala, tirando notas para depois, quando surgir a oportunidade do próprio intervir, ter o fundamento e registo para refutar, apoiar ou lançar novas ideias no debate. De seguida explorei o conceito e importância da cidadania: uma relação de direitos e deveres em que uns não existem uns sem os outros, e que uma sociedade com mais cidadania ativa é sempre uma melhor sociedade. Da cidadania passei à política, lembrando a ideia de Platão, de que “se não participarmos na vida política corremos o risco de ser governados pelos nossos inferiores”, servindo esta citação para reforçar que todos devemos estar disponíveis para fazer o nosso papel político como ato de cidadania, e quando nós próprios não nos sentimos preparados para desafios maiores devemos fazer de tudo o possível para escolher quem melhor nos representará politicamente. Nesta altura, o Sr. Diretor aproveitou para fazer uma referência que enquadrou estes princípios na realidade de turma dos estudantes do grau de ensino em causa. Referiu que nas eleições dos delegados de turma todos se devem disponibilizar, e que depois devem escolher conscientemente os melhores, não por relações amizade ou outras semelhantes, mas pelo mérito e capacidades de cada um. Terminada esta importante e relevante referência, salientei e tentei que os estudantes percebessem que: a partir do momento que vivem em sociedade, que conseguem comunicar, fazem, mesmo sem saber, política. Até usei o exemplo da origem da palavra Idiota para os fazer “acordar” – literalmente -, que significava na altura da democracia ateniense “homem privado”, ou seja aquele que não tinha interesse e vontade em participar na vida pública da sua sociedade.
A próxima etapa consistiu em falar da Democracia como forma de governo, referindo que apesar de, por vezes, falhar é a melhor forma de governo que conhecemos, e que é nosso dever enquanto cidadãos torna-la participativa de modo à sua melhoria contínua. Por fim cheguei ao tema das redes sociais, para dizer que são uma possibilidade imensa e revolucionária de comunicarmos, algo que nunca se viu no passado, mas que apesar disso existem perigos. Foram as redes sociais que permitiram fazer a “Primavera Árabe”, e razão pela qual em países não democráticos a sua utilização é restrita. No meu caso pessoal, referi como exemplo pessoal o “Movimento ANTI-Corrupção”, movimento informal que criei e que só pode acontecer e desenvolver-se devido às redes sociais; sem elas nunca teria conseguido passar a mensagem a dezenas de milhares de pessoas e ouvir os seus contributos para a construção do movimento, participado no Ignite Portugal, ter sido entrevistado e escrito textos de opinião para alguns meios de comunicação nacionais e locais (DN, Público, Região de Leiria), sido coautor de um livro (ver excerto aqui), e o blogue do movimento ter sido nomeado para o concurso internacional de blogues na Alemanha The BOBs – sendo o único representante português. Apesar de tudo isso – aspetos positivos das redes sociais e da WEB2.0 -, tinha de referir os aspetos negativos das redes sociais. Fi-lo aproveitando para sugerir algumas soluções: o modo como pode servir para maltratar a linguagem escrita, caso resolvido com a utilização de corretores ortográficos; a falta de privacidade, devidamente resolvida com consciência e correta utilização de filtros; o perigo do isolamento social, que se dissipa se as redes sociais servirem para organizar eventos e reuniões de amigos presencialmente. Aqui, pegando no exemplo dos SMS, dei o meu exemplo pessoal, de com ao utilização do dicionário de escrita automática me permitiu melhorar o modo como escrevia depois em papel. Assim, as redes sociais, apesar de perigos, quando bem utilizadas têm um potencial imenso. Por isso não há que ter medo da tecnologia. Para ilustrar isso relembrei o filósofo Sócrates, e do seu medo para com a escrita, temendo que ela tornasse as pessoas esquecidas. O resultado de não se ter ouvido os medos face à tecnologia que é a escrita, por parte do célebre filósofo ( e até escrever o que ele próprio dizia oralmente), permitiu acumular durante mais de 2000 anos muito do conhecimento humano atual – imagine-se o que seria que ninguém tivesse escrito o que acontecia e o que descobria. O medo das redes sociais pode ser, em parte, semelhante ao medo infundado de Sócrates. Com este exemplo, os estudantes ficaram a princípio espantados com este exemplo, tendo depois ficado a biblioteca em alvoroço – acho que com esta história acordaram! Estava assim concluída a primeira parte. De seguida vinha o debate.
Os alunos, a princípio, como é habitual nestas coisas, não demonstraram vontade de colocar dúvidas, questões ou intervirem. Mas claro, lá estávamos nós [eu e a professora Fátima] para “puxar” por eles. Perguntei-lhes se, depois desta sessão, achavam que a política era aquela coisa chata, aborrecida e que não tinham interesse? Responderam logo que não!, que o problema muitas vezes é dos próprios políticos e não da política. Perguntei-lhes também o que deveriam fazer, por exemplo, se tivessem um buraco na rua deles. Responderam que se iriam queixar. Completei-lhes a resposta, dizendo-lhes que deveriam ir à junta de freguesia, e para o caso de a junta não ter fundos para isso poderiam dar um exemplo de cidadania ativa: adquirirem, por todos os moradores, os materiais necessários e trabalharem em voluntariado conjunto para melhorar a sua rua. Ocorreu também outro caso curioso. Assim que algum dos jovens falava, caso tivesse alguma atrapalhação, logo todos os outros tentavam troçar e brincar com o sucedido. Este exemplo fez-me fazer mais uma pequena intervenção, onde referi que é preciso ter coragem para falar em público, partilhar o que sabemos e não sabemos, que só assim podemos aprender e melhorar, que ficar calado com receio das nossas ignorâncias de nada serve ou contribui; dei os parabéns e reforcei a coragem de todos e todas os que falaram.
Tentei rematar o debate com mais duas citações para que os jovens do hemiciclo improvisado pudessem refletir: “Todos o Homem é culpado pelo bem que não faz” – Voltaire; e, “se tiver 8 horas para cortar uma árvore, prefiro passar 6 delas a afiar o machado” – Abraham Lincoln.

Em jeito de resumo: cidadania e partilhar e receber. Nesse dia entre os jovens da Escola Dr. Correia Mateus senti que recebi muito!

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Redundâncias da Actualidade - criado em Novembro de 2009 por Micael Sousa





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