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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Para quando uma ludoteca pública de jogos na nossa biblioteca municipal?

Os livros continuam a ser caros face ao poder de compra dos portugueses. Uma das opções para conseguir poupar e manter hábitos de leitura consiste em recorrer às bibliotecas públicas. As bibliotecas podem não ter exatamente tudo o que procuramos, mas se tiverem o mínimo de qualidade e investimento, podem ter bastante, algo muito próximo do que desejamos. No entanto, esses espaços públicos não são meros depósitos de livros. Neles devem haver espaços de apoio ao leitor, recursos humanos que incentivem e apoiem os leitores, mas também outras valências. As bibliotecas têm-se transformado em espaços de cultura acessível. Muitas têm espaços para as crianças brincarem, espaços de lazer, cafetarias, salas de exposições, possibilidade de ver filmes, ouvir musica, entre outras coisas. A biblioteca Afonso Lopes Vieira, a nossa biblioteca pública em Leiria, não é exceção.

Mais para o centro e norte da europa existe algo que tem tornado as bibliotecas ainda mais animadas e frequentadas. Algumas têm ludotecas em que se pode utilizar e requisitar gratuitamente jogos de tabuleiro, podendo aceder aos títulos mais recentes, àqueles que chamamos “jogos de tabuleiro modernos”, fruto de uma industria criativa, sustentável e inovadora. Estes jogos não são baratos, custando várias vezes o preço de um livro. Não aconselho ninguém a comprar sem experimentar primeiro e perceber um pouco da variedade que existe. Nessas bibliotecas as pessoas podem experimentar e partilhar os jogos, reutilizando, o que evita consumos desnecessários. Nelas podem experimentar e testar, com colaboradores informados para auxiliar, tal como fazem com os livros.

Um serviço desta natureza numa biblioteca em Leiria seria valiosíssimo. Estes jogos são formas de cultura, pois geram dinâmicas importantes entre os jogadores, disseminando conhecimento, incentivando a comunicação e sociabilização. São enquadrados em temas e contextos, servindo para comunicar através do ato fascinante de jogar, o que se torna divertido e diferenciador, sem muitas alternativas que possam competir com isso. Estes jogos são um incentivo aos novos criadores das mecânicas conceptuais, investigadores que têm de estudar os temas associados aos jogos de modo a criarem uma abstração coerente, mas também para designers gráficos e de modelação. Um exemplo é o jogo “Lisboa” de Vital Lacerda. Nesse jogo os jogadores competem para contribuir para a reconstrução da capital portuguesa depois do terramoto de 1755. Para isso têm de perceber como funciona o comércio na época, o papel da igreja. Saber quais os poderes dos líderes do estado absoluto. Decidir onde construir os edifícios públicos no novo desenho urbano da cidade, que tipo de lojas incentivar a abrir e que bens produzir. Este é apenas um exemplo. Há muitos outros. 

Ter em Leiria uma biblioteca com estas valências teria um potencial único, especialmente porque estes jogos também poderiam ser utilizados pelas escolas como ferramentas de apoio educativo. Esta ideia não é difícil de implementar, basta querer.

Texto publicado no Diário de Leiria

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Um prémio literário para incentivar as indústrias criativas

Na última assembleia municipal de Leiria propus a implementação de um concurso literário. Escrevo com regularidade textos criativos e sempre achei estranho que em Leiria escasseassem concursos e prémios que incentivassem esse tipo de produções. O facto de haver um objetivo, um mote, algo que incentiva o desenvolvimento de competências e capacidades, ou pelo menos tentar ensaiar alguma originalidade nas produções, tem efeitos positivos na criação. Curiosamente, há umas semanas, realizou-se em Leiria uma reunião de vários escritores de Leiria, onde se referiu a ausência e escassez de prémios e concursos. Apercebi-me que afinal não era apenas uma opinião pessoal. Como eleito para a assembleia municipal pareceu-me adequado levar esta ideia a quem decide e constrói as políticas culturais municipais, mas também para perceber se havia concordância da parte dos restantes eleitos.

No entanto há que ressalvar algumas coisas. Instituir um prémio pecuniário ou ajudar à edição de um livro, como evento isolado, fica aquém do que realmente se pode fazer. Se Leiria quer uma comunidade onde a cultura seja mais do que um conceito decorativo, é preciso ir um pouco mais longe. O prémio literário necessita de ter um enquadramento mais abrangente, ser capaz de promover a produção literária regular e criar públicos transversais. Isto não se faz de uma assentada e com um evento mediatizado. Faz-se com regularidade e com uma continuidade de iniciativas coletivas que só vingam se forem assumidas pelos leirienses. Na prática isso passa por implementar regularmente oficinas de escrita criativa para todas as idades, sessões de leitura, onde as artes dramáticas e jogos possam ser incluídos, sem esquecer as novas tecnologias. Há que envolver a rede de bibliotecas locais e regionais nessa missão, homenagear autores de renome associados a Leiria. São imensas as possibilidades, basta querer seguir por essa via. É uma questão de políticas de cultura e para a cultura.
A produção literária é uma indústria criativa. Gera emprego e receitas, mas, tal como as indústrias, devem ser instaladas em infraestruturas adequadas, incorporar tecnologia e mão-de-obra qualificada. Nas indústrias criativas passa-se o mesmo. São atividades geradoras de emprego e de receitas, mas necessitam de condições para existir. Precisam de condições físicas e de uma conjuntura social favorável, mas, ao contrário das outras indústrias, as indústrias criativas são muito pouco intensivas no consumo de recursos naturais e altamente intensivas na utilização de mão-de-obra. Os produtos que produzem não se depreciam ao serem consumidos e entram facilmente numa economia circular. Quanto mais pessoas consumirem os produtos culturais mais sustentáveis se tornam. Isto é muito fácil de explicar na produção de uma música, mas também numa obra de arte que pode ser contemplada sem se consumir fisicamente. Até um livro pode ser lido por muitas pessoas. Consumir cultura é consumir algo que requer poucos recursos naturais, logo é ambientalmente sustentável.

Texto publicado no Diário de Leiria

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Da Assembleia Municipal numa sexta à defesa do ensino para a cidadania numa Sábado pela COES

Ontem ocorreu mais uma sessão da Assembleia Municipal de Leiria onde tive oportunidade de participar como deputado. Desta vez não fui em substituição, fui mesmo como membro efectivo. Poderia afirmar que seria com grande orgulho e satisfação que assumo esse papel, mas, apesar de ser um dever e cargo que me realiza civicamente por o tentar desempenhar como acção cívica, acabo por ficar triste. Fico com pesar por o cargo me ter chegado pelo abdicar de uma amiga, ainda por cima alguém que a meu ver tem dado e ainda teria por dar um grande contributo cívico e político aquele órgão do poder local. O melhor que posso fazer agora é tentar desempenhar esse novo papel, ainda que já o tenha assumido várias fezes como substituto, do modo mais positivo, activo e contributivo, defendendo o que verdadeiramente está em causa: o interesse público como acto de cidadania!
http://balooscartoonblog.blogspot.com/
O dia de ontem acabou tarde. Apesar de ter tentado defender aquilo que me parecia o interesse colectivo, através de sugestões e propostas sobre dois temas distintos, fica-me sempre a sensação, independentemente da sessão e maior envolvimento pessoal, que eu próprio muito mais poderia ter feito e contribuído. No fundo, até penso ser bom não ficar demasiado conformado e tentar exigir sempre mais, caso contrário arrisca-se o marasmo e perder de vista o ambicionado desenvolvimento - que neste caso é local.
Hoje, sábado, o dia começou bem cedo, pois, por volta das 10h00, queira estar em Lisboa para uma iniciativa da da Corrente de Opinião Esquerda Socialista (COES) dedicada à reflexão e debate em torno do passado e futuro do socialismo, tal como do próprio funcionamento e organização do PS enquanto partido político. De início não tinha pensado nem preparado nada para intervir, até porque nas iniciativas da COES pouco tenho a ensinar ou partilhar, tenho sim muito a aprender com os/as camaradas que participam habitualmente nessas iniciativas! Mas, com o desenrolar das intervenções e temas, acabei por decidir intervir. Fiz uma pequena intervenção, como é meu hábito - o mais concisa possível - sobre a necessidade do "educar para a cidadania" ser imperativo no nosso país, pois são imensos os nossos défices cívicos. Referi mesmo que isso poderia ser um das propostas estratégicas de fundo do socialismo: formar e educar cidadãos completos (informados e com capacidade activa) para mais igualdade de oportunidades e coesão social. Falei também da necessidade de reforçar a Democracia, aproveitando as novas tecnologias para uma tendência para ser cada vez mais directa e informada.
Nesse debate da COES, foram muitos os intervenientes - como é hábito - que trataram muitos  e variados assuntos: falou-se muito de ética como valor transversal ao partido e à sociedade; da necessidade de criar modelos económicos do socialismo democrático alternativos ao neoliberalismo capitalista; de abrir o partido aos cidadãos, de reformar e revitalizar a democracia com outros modos mais directos; de novos modelos produtivos; de igualdade de género; e muitos mais.
Foram dois dias cansativos, com horas de trabalho misturadas com participação cívica/política, centenas de quilómetros e um debate de fundo e ideológico. Foram dois dias enriquecedores politicamente, tanto nas questões mais práticas e do dia-a-dia como daquelas mais relacionadas com a ideologia "pura e dura".

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Quando percebi que me desagrada decorar história

Aquando da leitura do livro "Como se escreve a História", de Paul Veyne, e depois de relembrar os ensinamentos de Marc Bloch, tornou-se evidente para mim que História estava longe de ser uma atividade onde simplesmente se decoram eventos. O estudo e feitura da História é muito mais que isso, fazer História é refletir e sobre "o que se sabe até à data sobre determina época" e usar do racional para acrescentar conhecimento novo na forma de interpretação.
Bem, hoje durante um exame de "Pré-História" percebi na prática que sou incapaz de apenas decorar. Como o estudo das primeiras criações líticas pouco me diz, pouco fascínio me desperta, dificilmente poderei ter o interesse de fazer as associações que levam a conhecer a matéria, que depois leva a fixar alguns conceitos e ideias. Ou seja, sem a paixão que Marc Bloch diz que o historiador tem de ter pela história dificilmente se faz ou estuda história - no meu caso, dificilmente se passa à primeira no exame de pré-história.
Posteriormente, porque o tema da história como reflexão me parece ter muito interesse - a questão da paixão -, irei fazer um texto sobre o assunto no blogue A Busca pela Sabedoria


domingo, 18 de dezembro de 2011

Uma conversa sobre cidadania, política e redes sociais na Escola Dr. Correia Mateus

Dia 15 de Dezembro foi um dia de mais uma nova experiência, desta vez numa escola básica do 2º e 3º Ciclo. Já não é a primeira vez que participo numa conferência, debate ou tertúlia como orador, mas desta vez o público era muito mais jovem. Foi a primeira que vez que tive a oportunidade de falar e partilhar alguns supostos saberes e experiências com jovens estudantes, maioritariamente do 8ºano, com idades que devem andar compreendidas entre os 13 e os 15. Quando recebi o convite pela professora Fátima Fortunato fiquei  simultâneo preocupado e motivado. Fiquei um pouco desconfortável pois não era o meu ambiente normal, mas, por outro lado, fiquei cheio de vontade de participar pois seria uma nova experiência ainda mais interessante pelo tema a abordar e tratar.

O objetivo era falar e partilhar experiências sobre cidadania, participação cívica e política, a propósito do Projeto Parlamento Jovem e do tema deste ano: A descriminação nas redes sociais. Com este tema as possibilidades eram imensas, ainda que condicionadas pela necessidade de adaptar a linguagem ao público – um tipo de público com o qual estava longe de estar à-vontade.
O evento, intitulado de “Uma conversa sobre cidadania, política e redes sociais” começou com as boas vindas dadas pelo professor António Oliveira - o atual Diretor do Agrupamento de Escola Dr. Correia Mateus - tendo depois sido a professora Fátima Fortunato a fazer a minha apresentação.
Tendo sido apresentado comecei a “orar” – um termo curioso para um ateu. Comecei um pouco atrapalhado mas depois entrei no ambiente, que era bem agradável, pois deu-se na biblioteca da escola, com os alunos sentados numa espécie de hemiciclo construído com uma disposição propositada das cadeiras para o efeito. Comecei então por sugerir algumas dicas para participar num debate: ouvir enquanto alguém fala, tirando notas para depois, quando surgir a oportunidade do próprio intervir, ter o fundamento e registo para refutar, apoiar ou lançar novas ideias no debate. De seguida explorei o conceito e importância da cidadania: uma relação de direitos e deveres em que uns não existem uns sem os outros, e que uma sociedade com mais cidadania ativa é sempre uma melhor sociedade. Da cidadania passei à política, lembrando a ideia de Platão, de que “se não participarmos na vida política corremos o risco de ser governados pelos nossos inferiores”, servindo esta citação para reforçar que todos devemos estar disponíveis para fazer o nosso papel político como ato de cidadania, e quando nós próprios não nos sentimos preparados para desafios maiores devemos fazer de tudo o possível para escolher quem melhor nos representará politicamente. Nesta altura, o Sr. Diretor aproveitou para fazer uma referência que enquadrou estes princípios na realidade de turma dos estudantes do grau de ensino em causa. Referiu que nas eleições dos delegados de turma todos se devem disponibilizar, e que depois devem escolher conscientemente os melhores, não por relações amizade ou outras semelhantes, mas pelo mérito e capacidades de cada um. Terminada esta importante e relevante referência, salientei e tentei que os estudantes percebessem que: a partir do momento que vivem em sociedade, que conseguem comunicar, fazem, mesmo sem saber, política. Até usei o exemplo da origem da palavra Idiota para os fazer “acordar” – literalmente -, que significava na altura da democracia ateniense “homem privado”, ou seja aquele que não tinha interesse e vontade em participar na vida pública da sua sociedade.
A próxima etapa consistiu em falar da Democracia como forma de governo, referindo que apesar de, por vezes, falhar é a melhor forma de governo que conhecemos, e que é nosso dever enquanto cidadãos torna-la participativa de modo à sua melhoria contínua. Por fim cheguei ao tema das redes sociais, para dizer que são uma possibilidade imensa e revolucionária de comunicarmos, algo que nunca se viu no passado, mas que apesar disso existem perigos. Foram as redes sociais que permitiram fazer a “Primavera Árabe”, e razão pela qual em países não democráticos a sua utilização é restrita. No meu caso pessoal, referi como exemplo pessoal o “Movimento ANTI-Corrupção”, movimento informal que criei e que só pode acontecer e desenvolver-se devido às redes sociais; sem elas nunca teria conseguido passar a mensagem a dezenas de milhares de pessoas e ouvir os seus contributos para a construção do movimento, participado no Ignite Portugal, ter sido entrevistado e escrito textos de opinião para alguns meios de comunicação nacionais e locais (DN, Público, Região de Leiria), sido coautor de um livro (ver excerto aqui), e o blogue do movimento ter sido nomeado para o concurso internacional de blogues na Alemanha The BOBs – sendo o único representante português. Apesar de tudo isso – aspetos positivos das redes sociais e da WEB2.0 -, tinha de referir os aspetos negativos das redes sociais. Fi-lo aproveitando para sugerir algumas soluções: o modo como pode servir para maltratar a linguagem escrita, caso resolvido com a utilização de corretores ortográficos; a falta de privacidade, devidamente resolvida com consciência e correta utilização de filtros; o perigo do isolamento social, que se dissipa se as redes sociais servirem para organizar eventos e reuniões de amigos presencialmente. Aqui, pegando no exemplo dos SMS, dei o meu exemplo pessoal, de com ao utilização do dicionário de escrita automática me permitiu melhorar o modo como escrevia depois em papel. Assim, as redes sociais, apesar de perigos, quando bem utilizadas têm um potencial imenso. Por isso não há que ter medo da tecnologia. Para ilustrar isso relembrei o filósofo Sócrates, e do seu medo para com a escrita, temendo que ela tornasse as pessoas esquecidas. O resultado de não se ter ouvido os medos face à tecnologia que é a escrita, por parte do célebre filósofo ( e até escrever o que ele próprio dizia oralmente), permitiu acumular durante mais de 2000 anos muito do conhecimento humano atual – imagine-se o que seria que ninguém tivesse escrito o que acontecia e o que descobria. O medo das redes sociais pode ser, em parte, semelhante ao medo infundado de Sócrates. Com este exemplo, os estudantes ficaram a princípio espantados com este exemplo, tendo depois ficado a biblioteca em alvoroço – acho que com esta história acordaram! Estava assim concluída a primeira parte. De seguida vinha o debate.
Os alunos, a princípio, como é habitual nestas coisas, não demonstraram vontade de colocar dúvidas, questões ou intervirem. Mas claro, lá estávamos nós [eu e a professora Fátima] para “puxar” por eles. Perguntei-lhes se, depois desta sessão, achavam que a política era aquela coisa chata, aborrecida e que não tinham interesse? Responderam logo que não!, que o problema muitas vezes é dos próprios políticos e não da política. Perguntei-lhes também o que deveriam fazer, por exemplo, se tivessem um buraco na rua deles. Responderam que se iriam queixar. Completei-lhes a resposta, dizendo-lhes que deveriam ir à junta de freguesia, e para o caso de a junta não ter fundos para isso poderiam dar um exemplo de cidadania ativa: adquirirem, por todos os moradores, os materiais necessários e trabalharem em voluntariado conjunto para melhorar a sua rua. Ocorreu também outro caso curioso. Assim que algum dos jovens falava, caso tivesse alguma atrapalhação, logo todos os outros tentavam troçar e brincar com o sucedido. Este exemplo fez-me fazer mais uma pequena intervenção, onde referi que é preciso ter coragem para falar em público, partilhar o que sabemos e não sabemos, que só assim podemos aprender e melhorar, que ficar calado com receio das nossas ignorâncias de nada serve ou contribui; dei os parabéns e reforcei a coragem de todos e todas os que falaram.
Tentei rematar o debate com mais duas citações para que os jovens do hemiciclo improvisado pudessem refletir: “Todos o Homem é culpado pelo bem que não faz” – Voltaire; e, “se tiver 8 horas para cortar uma árvore, prefiro passar 6 delas a afiar o machado” – Abraham Lincoln.

Em jeito de resumo: cidadania e partilhar e receber. Nesse dia entre os jovens da Escola Dr. Correia Mateus senti que recebi muito!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Distúrbios em Inglaterra - O pior da Direita, da Esquerda e da Cultura Pop

Chocaram as imagens e sons que chegaram de Inglaterra. Há medida que mais se vai conhecendo e sabendo sobre os distúrbios pela britânica ilha, a preocupação não pode deixar de nos assaltar. Se isto foi possível num pais que passa as imagens do civismo e tolerância, que extrapolações e comparações poderemos fazer para o nosso?
De um modo muito genérico, de imediato diria que presenciamos, ao nível governativo, exemplos do pior das duas grandes ideologias políticas (Esquerda e de Direita) em simultâneo, apesar de em áreas diferentes. O pior da Esquerda no que toca à segurança, pela incapacidade de responder e actuar de imediato no terreno para garantir a segurança; tendencialmente a Esquerda – e bem a meu ver – tende a apostar na prevenção e intervenção para minimização da pobreza, da exclusão social e consequentemente do crime; no entanto, quando as coisas se descontrolam, como foi o caso, tem de haver capacidade de resposta. O Pior da Direita relaciono com a desvalorização da intervenção social; os cortes nos meios de acção social local que garantiam o estabilizar de comunidades e grupos tendencialmente problemáticos potenciaram o caos registado.
Ainda de um ponto de vista político/ideológico, foram os próprios conceitos de liberdade e tolerância que ficaram em causa. Basta notar que, associados aos movimentos de residentes e proprietários que se formaram para proteger os seus bairros e bens, obrigados a isso devido à inacção policial, grupos da “extrema-direita” não democrática aproveitaram de imediato o caos para difundirem as suas ideologias de intolerância e violência.

Mas existe uma perspectiva cultural, talvez essa sim a própria génese do problema e aquela sobre a qual, enquanto sociedade, nos devíamos debruçar. Não falo das minorias étnicas ou religiosas, não! Falo da cultura Pop disseminada nos países ocidentais (incluindo Portugal) desde há uns anos para cá: tem sido habitual, artistas, criadores e “fazedores de opinião” (opinion makers) populares entre os mais jovens, elevarem ao estado de “modelo e conduta a seguir” o "herói bandido” - aquele que recorre a todos os meios para ter aquilo que quer, independentemente disso violar códigos de conduta, a sã convivência e respeito pela liberdade e direitos alheios e colectivos. Mais cedo ou mais tarde os reflexos dos valores culturais, continuamente disseminados, teriam de se manifestar – o efeito só poderia ser incompreensível e explosivo. Parece-me que a ignição começou devido às causas justas de alguns - os verdadeiramente pobres e marginalizados -, mas também às injustas de outros: o continuar da cultura recebida agora manifestada em actos físicos nas ruas; o simples facto de querer ter o que não se pode;  e, como alguns dizem, porque até nem tinham nada para fazer (férias e pausa do campeonato de futebol) - o que é no mínimo triste e revoltante! 

Para além dos problemas apontados, então e soluções? Apronto duas possíveis: meios e modos de garantir a lei e a justiça, sem atropelos às liberdades individuais e colectivas; e uma forte capacidade de transmitir valores e educar cidadãos (formal e informalmente), para que eles próprios possam saber de facto que liberdade não existe sem responsabilidade.

Texto publicado no Diário de Leiria em 18 de Agosto de 2011

quarta-feira, 27 de julho de 2011

As novas Novas Oportunidades

Vai se provando que as ideologias não morreram, muito pelo contrário – e ainda bem. O que lamento é serem encapuçadas e não admitidas quando utilizadas para atacar determinadas coisas. Falo do programa Novas Oportunidades (NO), como exemplo mais actual disso.

Mas vamos à coisa em si. Primeiro há que identificar exactamente o que é o programa Novas Oportunidades. O acrónimo RVCC , que é apenas uma das modalidades das NO,  significa Reconhecimento e Validação de Certificação de Competências, ou seja, foi algo criado especificamente para um público-alvo bem definido, com experiência de vida cumulativa capaz de ser equiparada aos saberes garantidos por determinados níveis do ensino formal. Obviamente o RVCC não é para todos, apesar de muitos portugueses se adequarem a esta validação. Mas para quem não tem por si só as tais competências, ou mesmo tendo pretende aprender mais, existem as restantes metodologias e opções formativas tais como: EFA, CEF, RVCC profissional, CET, e muitas mais.
Agora a perspectiva ideológica do programa NO. Estas oportunidades são um modo de fazer justiça face ao passado, construindo o futuro. Somente os meios mais elitistas e privilegiados, que pretendem ignorar a História, podem negar que até ao final da década de 70 o prosseguimento de estudos, directa ou indirectamente, era vedado à maioria. Quem pode dizer àqueles que no passado foram forçados apenas à 4ª classe ou 6ªano que hoje não podem, nem merecem, ter Novas Oportunidades? Trata-se, no mínimo, de uma questão de Justiça, e, ideologicamente falando, de um modo de garantir hoje a igualdade de oportunidades que nunca aconteceu no passo. É a igualdade de oportunidades que promove a evolução e desenvolvimento social, com benefícios para os indivíduos e sociedade em geral. Só o negarão as perspectivas mais conservadoras que temem a perda de estatuto social, pois o saber e o acesso à informação privilegia quem os detém.
Mas claro, o programa das NO não é perfeito, e mesmo sendo uma boa medida – conceptualmente – tem falhas. Pois, nem sempre, pela pressão de metas e objectivos, se consegue exigir tanto quanto serial ideal, mas também porque por vezes faltam os meios materiais e humanos para tais exigências. No entanto, mesmo com todas estas lacunas, ninguém, depois de passar por um processo destes, fica igual. As mudanças e evoluções são evidentes. Temos de pensar na valorização e reforço da pessoa que tem a sua nova oportunidade, de como fica esperta para o uso das TIC, de como a partir dai valorizará a importância do saber e da formação, e de como poderá apoiar e acompanhar e incentivar ainda melhor a educação e formação dos seus filhos! No fundo é a própria cidadania que se enriquece também! Só por isso vale a pena! Vale a pena continuar a melhorar o programa!
Chegou a altura de dar Novas Oportunidades àqueles que, desperdiçando a primeira, formaram juízos de valor, e com isso preconceitos infundados, sem saber ou compreenderem a complexidade destes e outros casos!


Não precisará a empatia social de uma Nova Oportunidade?

(Texto publicado parcialmente no Região de Leiria em 3 de Junho de 2011)

terça-feira, 21 de junho de 2011

Uma experiência no concurso "Região com Futuro" 2011

No passado dia 8 de Junho deu-se a entrega dos prémios "Região com futuro", iniciativa da ADLEI e do IPL, que tinham como objectivo distinguir os melhores trabalhos de alunos do 12º e 3ªano do ensino profissional do distrito de Leiria e Concelho de Ourém. A cerimónia decorreu no auditório dos Serviços Centrais do Instituto Politécnico de Leiria. Ao todo concorreram 37 projectos, muitas escolas, alunos e professores.
 Na edição deste ano, que por sinal até é a última que se fará deste concurso porque a disciplina de "área de projecto" vai ser, infelizmente, retirada dos programas escolares, tive a honra de fazer parte do júri que avaliou os trabalhos.
Confesso que fiquei surpreendido, pela positiva, com a qualidade, conteúdos e estruturas, dos trabalhos. Cheguei mesmo a aprender, cheguei mesmo a aprender coisas relacionadas com a minha própria formação académica - surpresa total, confesso. Foi um prazer ler os trabalhos! Mais difícil foi avalia-los e escolher um vencedor, não podiam vencer todos. Aliás, em parte todos venceram, pois terem participado foi já um prémio ganho para estes alunos. Através dos trabalhos que realizaram ganharam novas competências, novos conhecimentos e despertaram interesse por áreas que nem sempre constam dos planos curriculares formais, especialmente no que se relaciona com a solidariedade e cidadania activa. Apesar dos trabalhos estarem, regra geral muito bons, foi consensual a atribuição dos primeiros 3 lugares e restantes 3 menções honrosas.
 Tal como tive depois oportunidade de dizer durante a cerimónia, professores e alunos estavam de parabéns, pois deram verdadeiras lições de técnica, solidariedade e cidadania activa. Fiz questão de reforçar, por acredito efectivamente no que disse, que estes alunos tinham todas as condições para aceder ao ensino superior e que tinham provadas dadas de verdadeira e responsável cidadania, eram cidadãos feitos!

Parabéns a todos os envolvidos. Parabéns especialmente à Dra. Anabela Graça, presidente da ADLEI, pois sem a sua energia e dedicação isto não teria sido possível!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Concorda com a redução do financiamento ao ensino particular e cooperativo?

Na verdade temos de nivelar o ensino por cima, mas com equidade entre todos. Novamente neste, como noutros casos, parece difícil ao cidadão comum ter uma opinião séria sobre o assunto. Afinal quem fala verdade, Governo ou Escolar Privadas e Cooperativas de Ensino? Provavelmente todos falam a sua "verdade" pois todos têm a sua "razão", até porque cada caso deve ser um casos e estes cortes seguramente que promovem tanto justiça como injustiça. Quem nos informará verdadeiramente sobre o que pensar?
Comentário à questão em epígrafe lançada no facebook do semanário regional REGIÃO DE LEIRIA. Apenas foi publicada a parte aqui identificada a vermelho.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Semana Académica de Leiria: Leirienses vs. Estudantes

As novas regras para a Semana Académica de Leiria vêm mais uma vez evidenciar o conflito, e a incompreensão mútua, entre estudantes do Ensino Superior e Habitantes da Cidade de Leiria – representados pela CML. A única forma de resolver as divergências, que se vão agudizando, passa pelo diálogo, pela abertura de espírito e pela capacidade de cada “um” se colocar no lugar do “outro”. Havendo essa capacidade será mais de meio caminho andado para uma solução que respeite e sirva os Leirienses, onde se incluem os Estudantes. Aqui não se trata de ver quem é o dono da razão, pois todos têm o seu quinhão: os Leirienses por serem incomodados até horas impróprias e assistirem a comportamentos pouco dignos e distúrbios causados por alguns estudantes; os Estudantes por fazerem parte da sociedade leiriense e com isso terem direito às suas festividades e comemorações – nem que seja pelo contributo cultural e económico que dão à cidade.
A proposta que faz a C. M. de Leiria parece-me ser um bom princípio para se chegar a uma solução pragmática para o problema. No entanto, o horário de encerramento poderia ser um pouco mais alargado, mas somente se isso se conseguisse cumprir à risca. Todos sabemos como é difícil respeitar horários em Portugal – algo bem mais complicado que chegar a um consenso.
Assim, antes de recorrer a críticas com base em generalizações e preconceitos, há que reflectir sobre os efeitos que cada posição tem no agudizar deste dispensável confronto. Aqui penso que os estudantes podem dar o exemplo e demonstrar na prática o que significa ser detentor de uma educação superior.

(Texto publicado no Região de Leiria em 3 de Dezembro de 2010)

domingo, 26 de setembro de 2010

Alteração da Constituição – um processo de argumentação anti-lógico?

Um dos pressupostos – provavelmente até o mais importante - que nos permite utilizar a lógica como grande ferramenta capaz de fundamentar e dar força a um argumento num debate ou discurso é o recurso a um encadeamento de premissas (evidências ou argumentos de base simples), que se parte do princípio que são verdadeiras, com um determinado conteúdo de modo a atingir uma determinada conclusão/ideia - obrigatoriamente verdadeira se as premissas que o originaram também o forem. No fundo, recorrer à lógica, que segundo a Filosofia é a “arte de bem pensar”, é um bom modo de bem argumentar e fundamentar uma ideia ou opinião. Mas, infelizmente, nem sempre as ideias ou debates nascem e utilizam os preceitos da lógica – ou não sem os adulterar -, sendo essa prática comum quando se faz política – especialmente a “má política”. Um caso disso é discussão que se iniciou há uns meses sobre algumas propostas de alteração à actual Constituição da República Portuguesa e que agora, depois da reentre política, voltam de novo a causar polémica, pois alguma da argumentação em defesa da necessidade dessas mesmas alterações tende, na minha opinião, a violar normas básicas do uso da lógica. Isto porque se socorre de premissas (ideias base supostamente verdadeiras) que são falsas, ou por comprovar, para chegar às conclusões que querem que aceitemos.
 Então vejamos alguns exemplos da argumentação usada para alterar a constituição.
  • Questão do Emprego: Existe desemprego – premissa verdadeira; Despedimentos facilitados aumentam a criação de emprego – premissa falsa; Facilitar os despedimentos é modo de combater o desemprego - conclusão lógica falsa porque a 2ª premissa é falsa. A conjugação das duas premissas resultaria no agravamento do desemprego.
  • Questão da Saúde: Os cuidados de saúde prestados aos cidadãos são dispendiosos - premissa verdadeira; Os cidadãos adoecem mais porque isso não lhes traz acréscimo significativo de custos - premissa falsa; Aumentar os custos dos serviços de saúde vai reduzir os custos para o Estado pois os cidadãos só usariam esses serviços em estrita necessidade, sendo que assim também os valorizariam mais porque pagariam por eles – conclusão lógica falsa porque a 2ª premissa é falsa ou está por provar. Neste caso dever-se-ia concluir simplesmente que os custos para o utente iriam aumentar. 
  • Questão da Educação: A qualidade da educação pode sempre ser melhorada – premissa verdadeira; A educação pública universal é pior do que a privada que é mais rigorosa – premissa falsa; A educação deixa de ser uma obrigação do Estado porque o ensino privado e pago é de melhor qualidade - conclusão lógica falsa porque a 2ª premissa está por provar. Aqui a conclusão seria que a educação universal de qualidade deixaria de ser uma obrigação.
Esta suposta falta de rigor, que acontece quando se argumenta sem uma boa base lógica, é provavelmente um reflexo da pouca importância que se dá ao estudo de disciplinas como a Filosofia (ou da Matemática enquanto lógica). Ainda pior é que ainda há quem pondere acabar com ensino obrigatório desta importante disciplina nas escolas – provavelmente é mais um dos ataques à escola pública universal, ataques se registam igualmente a outros serviços públicos por parte de quem os pode dispensar devido à sua capacidade financeira de pagar serviços reservados às elites. Ou então o problema aqui é simplesmente económico, sendo aqui a lógica suplantada pela poder dos números quando conjugados com cifrões!
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Redundâncias da Actualidade - criado em Novembro de 2009 por Micael Sousa





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