quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Distúrbios em Inglaterra - O pior da Direita, da Esquerda e da Cultura Pop

Chocaram as imagens e sons que chegaram de Inglaterra. Há medida que mais se vai conhecendo e sabendo sobre os distúrbios pela britânica ilha, a preocupação não pode deixar de nos assaltar. Se isto foi possível num pais que passa as imagens do civismo e tolerância, que extrapolações e comparações poderemos fazer para o nosso?
De um modo muito genérico, de imediato diria que presenciamos, ao nível governativo, exemplos do pior das duas grandes ideologias políticas (Esquerda e de Direita) em simultâneo, apesar de em áreas diferentes. O pior da Esquerda no que toca à segurança, pela incapacidade de responder e actuar de imediato no terreno para garantir a segurança; tendencialmente a Esquerda – e bem a meu ver – tende a apostar na prevenção e intervenção para minimização da pobreza, da exclusão social e consequentemente do crime; no entanto, quando as coisas se descontrolam, como foi o caso, tem de haver capacidade de resposta. O Pior da Direita relaciono com a desvalorização da intervenção social; os cortes nos meios de acção social local que garantiam o estabilizar de comunidades e grupos tendencialmente problemáticos potenciaram o caos registado.
Ainda de um ponto de vista político/ideológico, foram os próprios conceitos de liberdade e tolerância que ficaram em causa. Basta notar que, associados aos movimentos de residentes e proprietários que se formaram para proteger os seus bairros e bens, obrigados a isso devido à inacção policial, grupos da “extrema-direita” não democrática aproveitaram de imediato o caos para difundirem as suas ideologias de intolerância e violência.

Mas existe uma perspectiva cultural, talvez essa sim a própria génese do problema e aquela sobre a qual, enquanto sociedade, nos devíamos debruçar. Não falo das minorias étnicas ou religiosas, não! Falo da cultura Pop disseminada nos países ocidentais (incluindo Portugal) desde há uns anos para cá: tem sido habitual, artistas, criadores e “fazedores de opinião” (opinion makers) populares entre os mais jovens, elevarem ao estado de “modelo e conduta a seguir” o "herói bandido” - aquele que recorre a todos os meios para ter aquilo que quer, independentemente disso violar códigos de conduta, a sã convivência e respeito pela liberdade e direitos alheios e colectivos. Mais cedo ou mais tarde os reflexos dos valores culturais, continuamente disseminados, teriam de se manifestar – o efeito só poderia ser incompreensível e explosivo. Parece-me que a ignição começou devido às causas justas de alguns - os verdadeiramente pobres e marginalizados -, mas também às injustas de outros: o continuar da cultura recebida agora manifestada em actos físicos nas ruas; o simples facto de querer ter o que não se pode;  e, como alguns dizem, porque até nem tinham nada para fazer (férias e pausa do campeonato de futebol) - o que é no mínimo triste e revoltante! 

Para além dos problemas apontados, então e soluções? Apronto duas possíveis: meios e modos de garantir a lei e a justiça, sem atropelos às liberdades individuais e colectivas; e uma forte capacidade de transmitir valores e educar cidadãos (formal e informalmente), para que eles próprios possam saber de facto que liberdade não existe sem responsabilidade.

Texto publicado no Diário de Leiria em 18 de Agosto de 2011

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