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quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Inventar um novo ano

 A terra deu mais uma volta ao sol, marcando assim mais um ano. Definimos o primeiro de janeiro como marca desse ponto de viragem simbólico. Mas poderia ter sido noutro dia qualquer. Precisamos de atribuir significados a tudo, e a mudança de ano é um dos mais importantes. Organizamos a nossa vida em anos e suas demais subdivisões para medirmos a incerteza da vida.

Organizar a vida em anos permite invocar a metáfora do renascimento. Num ano que correu mal, em que a taxa de mortalidade voltou um século atrás, precisamos verdadeiramente de reiniciar a vida. Na verdade, o tempo é um fluxo contínuo. Mas para os físicos o tempo pode ser muitas outras coisas, algumas que temos dificuldade em imaginar. Assumimos o tempo como um facto verdadeiro, apesar de poder ser verdadeiramente incompressível. Valorizamos esta verdade como sendo absoluta e imutável, definida e objetiva. Mas a verdade pode ser relativa, dependendo do ponto de vista, do enquadramento e das construções conceptuais sobre a qual é formulada, tal como da luz do seu tempo. A nossa condição humana cobre tudo com o manto da subjetividade e de significados configuráveis, quer queiramos quer não. É essa capacidade que nos faz mover, responder e sobreviver. Faz parte da condição humana, do modo como os nossos cérebros funcionam e se ativam através das emoções. A mudança de ano pode ser algo meramente simbólico, uma construção do real. No entanto, nem por isso deixa de ser importantíssima.

Acreditamos que neste ano de 2021 tudo será melhor. A divisão em anos permite fazer estas barragens, introduzir comportas à negatividade. Celebrar um novo ano pode parecer inútil, mas não é. Essas festividades não têm de estar associadas a um culto ou religião, embora quase sempre estejam, porque cada vez mais se diluem as influências do sagrado e da crença coletiva, tanto que os extremismos tentam chocar para recuperar esses valores perdidos. Ainda assim podemos ver para além do misticismo, saber que é uma criação humana, sem que perca o seu efeito. 

Também no ano passado, pela primeira vez, desde da existência da humanidade, a massa de bens artificiais ultrapassou a massa de matéria viva no planeta. Somos animais criativos, tanto que nos autodestruímos. Para além disso, criamos talvez ainda mais coisas imateriais, criamos cultura, criamos significados para o que criamos.

Neste ano acabado de criar, persiste, tal como sempre, a força da imaginação humana como resposta perante o perigo. Nada de novo, embora tenha ficado evidente a dificuldade em ocultar as ameaças. Percebemos o quão frágeis podemos ser. Quão pouco basta para mudar a realidade. Não sabemos ainda quais os efeitos da pandemia no futuro, na nossa civilização, nas sociedades, culturas e economias que gera. Não sabemos propriamente quais as causas e efeitos, quais as relações com o ambiente e o clima. Temos como desafio encontrar essas razões e se necessário os significados para trazer ordem ao mundo, para que, mesmo sujeito a tantas mudanças, possamos criar significados para podermos continuar a viver como humanos criadores. 


segunda-feira, 13 de abril de 2020

Aproveitar o vírus para decrescermos e evoluirmos

Depois de uma grande crise surgem sempre oportunidades de mudança e de fazer uns clichés. No final Vai Ficar Tudo Bem, porque ninguém sabe quando é isto acaba, mesmo quando inventamos finais felizes em histórias para acalmar os espíritos mais infantis. Era uma vez um sistema capitalista altamente adaptável onde todos vivíamos, mas onde nem todos morrerão felizes para sempre, porque o sistema está sempre a mudar e a transformar-se em realidades cada vez mais complexas. 

Muito do que fazemos afinal era inútil e dispensável. Percebemos que conseguimos viver consumindo menos. A produtividade bruta não é o mais importante, e não depende de horários rígidos nem de reuniões presenciais. Podemos ser produtivos sem nos deslocarmos e gastar recursos. Acelerámos sem bólides e não perdemos a nossa existência ao dispensar tantos papeis, viajar e vestir formalmente roupas uniformizadas. Também não precisamos de ir tantas vezes às compras. Mas precisamos de casas confortáveis, de saber estar e viver uns com os outros nos mesmos espaços. Precisamos de reaprender as vantagens de viver em comunidade, mesmo que seja para falar à varanda.

A pandemia traz uma lição de humanidade, mas só para alguns. Não estamos todos no mesmo barco, nem nas mesmas casas. É muito comodo falar das dificuldades do confinamento quando conseguimos manter os nossos rendimentos, ter conforto e múltiplas atividades para nos entreter. 

O confinamento obriga-nos a pensar. Alguns de nós ficaram com mais tempo, outros sentiram o efeito oposto, pela sobrecarga do trabalho remoto em simultâneo com o incremento das lides domésticas e da educação dos filhos perdidos sem aulas. Sabemos que não vai ficar tudo bem, que os impactos sociais e económicos vão ser imensos. Sabemos que a democracia corre riscos sérios, pois são estes os momentos mais propícios para o surgimento de extremismos. Os governos, por mais liberais que sejam, vão ter de intervir diretamente na economia e fazer planeamento social. 

Apesar de tudo, o modelo capitalista vigente não sabe lidar com decrescimento, por isso vai querer vingança. Dos cuidados intensivos aos infetados pelo COVID-19 os governos vão focar-se em cuidado paliativos para manter o capitalismo vivo. A próxima crise provocada pelas alterações climáticas, agora atenuada com o abrandamento económico, poderá ser então acelerada de forma irreversível. Com a natural reação furiosa para recuperar o “tempo perdido” iremos acentuar o crescimento a todo o custo, consumindo mais ainda que antes. 

Então é o momento de planear, apesar de todas as incertezas. Estamos no pico da curva da esperança, em frente à bifurcação da sustentabilidade. Há que aproveitar o momento para mudar rumo à sustentabilidade. Está na altura de consumir só o que precisarmos, de preferência de origem local e de acordo com a sazonalidade, transferindo a ânsia consumista para a cultura, porque essa nunca se esgota. Está na altura de evitar deslocações e trabalhar usando as tecnologias que nos permitem escapar aos modelos produtivos rígidos e seus desperdícios. 

Texto publicado no Diário de Leiria

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Uma evitável Democracia desinformada

Acreditava-se que quando as sociedades fossem democráticas poderíamos ter espaço de igualdade e liberdade, que poderíamos transitar de um sistema tendencialmente representativo para modelos onde os cidadãos se envolvessem mais nos assuntos cívicos. Esperava-se que a transição fosse gradual e progressivamente geradora de governos onde todos os cidadãos pudessem ser integrados, pois todos teriam o mínimo de competências e discernimento para tal. Esperava-se que com tudo isso, com a melhoria das condições de vida gerais e da elevação dos níveis de educação, uma sociedade mais justa emergisse. Era mais ou menos assim a utopia democrática.

Estaremos apenas a viver um momento de crise antes que os sistemas democráticos se aproximem destes objetivos ou estamos perante uma falência generalizada do modelo? Isto parece muito negativista, no entanto uma dose de realismo é necessária para construir o otimismo democrático que necessitamos. Chamam-se aos movimentos de manipulação política com sucesso eleitoral: populismos. Parece-me uma designação infeliz, pois parte-se do princípio de que a ignorância e o egoísmo são o caminho para a popularidade política entre as populações. Ou seja, de que a população só é mobilizável por emoções negativas, sem outras alternativas.

Sabemos que as emoções negativas são poderosos estimulantes para a ação política. Poucas foram as revoluções sem essa génese. Os jornais vendem mais quanto piores as notícias. Exemplos não faltam. No entanto tudo são construções sociais, que nos influenciam individualmente, mas que também podemos influenciar. É uma questão de consciência, vontade e ação. No entanto, caso nos esqueçamos, por ser algo intrínseco ao nosso modo de viver e pensar, vivemos uma sociedade consumista e hedonista. Onde consumimos por prazer e como forma de ser. São incontáveis as múltiplas formas que nos são proporcionadas para atingir o prazer. E isso tem sido uma forma de evitar, pelo menos nos países mais desenvolvidos economicamente, totalitarismos e extremismos. Mas a nossa sede por mais é insaciável e um mundo inteiro parece não chegar, tanto que não nos apercebemos que só temos mesmo um planeta. 

Então e não haverá esperança? Creio que sim ainda que não seja fácil. Parece-me que a solução terá de passar por um conjunto integrado e interligado de solução, adaptadas aos nossos tempos. Acusar as pessoas não surtirá efeito. Proporcionar novas formas de combater a ignorância sim. Aprender não tem de ser aborrecido. Assumir uma cidadania ativa também não. Há que conhecer aquilo que cativa as pessoas e usar essas técnicas e designs para outros fins, além do mero consumo e impulsionado pela simples razão de acumular capital. O consumo pode ser mais cultural, mais sustentável ainda que material e servir para acumular uma sabedoria rumo à tal utopia democrática. Temos de ultrapassar o limiar do tédio e do desagradável para a democracia não perecer, garantindo qualidade de vida geral. Sem isso, não há democracia que sobreviva.

 Nota: texto publicado n Diário de Leiria

Avaliar o ano com racionalidade emotiva em grupo

Será que no final de cada ano temos facilidade em fazer um balanço pessoal? Independentemente dos significados religiosos ou místicos, os ciclos são importantes. As metáforas do recomeço são oportunidades que estimulam a esperança em novas realizações e mudanças. Podemos fazer isso de modo informal, evitando balanços, gráficos e fórmulas complicadas, impelindo a interação emocional, mas com alguma racionalidade.

Por isso fiz uma experiência durante as festas de final de ano. Aproveitando o tempo à mesa, comecei por tentar perceber se as pessoas conseguiam fazer balanços e identificar coisas positivas do ano que havia passado. As reações foram múltiplas. Desde a imediata capacidade para identificar exemplos, até ao comentário de que nada de especial tinha ocorrido ou que não se queria partilhar. Fiquei a pensar nisto. Será que quando estamos com os nossos familiares conseguimos ir além das conversas generalistas? Será que falamos sobre nós e que os ouvimos, compreendendo o que sentem e o que gostariam ou não de fazer ou ser? Penso que poderíamos facilmente aprofundar os nossos relacionamentos, mas sem o exagero de os transformar em sessões de terapia. Talvez seja apenas uma questão de consciência, de haver tempo para todos falarem e partilharem, ao seu jeito e ritmo, garantindo que quem escuta compreende. Temos cada vez menos tempo para todas as solicitações pelo que não podemos desperdiçar os momentos presenciais. Os silêncios, as repetições das conversas de sempre, os domínios e desequilíbrios de comunicação podem levar ao afastamento e falta de empatia. 

Se partilharmos o que ocorreu de bom e mau com quem gostamos, garantido que há uma escuta efetiva e que a nossa realidade é compreendida, podemos garantir empatia e proximidade. Podemos entrar numa espiral de autoajuda e de apoio direto onde realmente é útil e preciso. Ajuda para ultrapassar o que nos incomoda e para construir o que desejamos. Jürgen Habermas chamou a isto racionalidade comunicativa, como elemento essencial para estabelecer colaboração. Se todos os intervenientes forem verdadeiros e claros nas suas partilhas, todos ouvirem e compreenderem o porquê do seu estado, mesmo que não concordem com a pessoa em causa, estabelece-se uma nova forma de racionalidade. Se conseguirmos atingir este estágio de comunicação podemos colaborar. Neste caso seria a colaboração para a gestão emocional coletiva.  

Seguindo estes princípios, os balanços anuais seriam mais fáceis de fazer, ainda que a vida esteja cheia de maus momentos e estar sozinho também possa ser bom. Neste espírito de colaboração podemos expressar a nossa individualidade enquadrada no coletivo, explorar a dimensão relacional de entreajuda quando necessário, pois tudo fica mais claro. As conversas de família não precisam de ser chatas, repetitivas e inúteis. Podemos ter momentos anuais de reflexão em que podemos conversar de muitas maneiras, até de forma lúdica, estruturando a nossa existência. 

Nota: texto publicado no Diário de Leiria

Melhorar os Mercados de Natal em Leiria e mais além

Há pouco mais de 10 anos era raro existirem animações de natal como como as atuais. Iluminava-se a rua e pouco mais. Óbidos foi quem realmente inovou nesta matéria, através das suas estratégias de animação cultural e de entretenimento. Desde então praticamente quase todos tentaram replicar, copiar ou fazer algo semelhante. 

Mas a origem destas festas está mais a norte. Há muitos anos que os festivais de natal, com os típicos ícones invernais da cultura Anglo-saxónica, Escandinava e de Leste animam o Norte da Europa e da América. Mudam-se os tempos e surgem naturais processos de aculturação, intensificados pelas poderosas ferramentas que hoje todos utilizamos, mas ainda mais por quem precisa de fazer dessa promoção profissão. É ver também os mais velhos a invocar o Menino Jesus perante as invasões de Pais Natais. Esse menino que alguns beijavam o pé e assim arriscavam levar algo mais para casa do que apenas uma alma purificada.

Temos assistido à continua transformação das festividades de Natal em Leiria, cada vez mais próximas do que se vê no norte da Europa. Lembro-me de quando não havia nada, da crise e daquela iniciativa em que se iluminou a Rua Direita com velas em copos oferecidas pelos leirienses. Pena não se integrarem essas iniciativas e recuperar outras que se perderam, tal como a exposição de construções originais em peças de Lego, de grandes dimensões, que trazia milhares de pessoas ao Banco de Portugal. Mas admito que possa ser apenas o meu gosto pessoal a transparecer. Há que lembrar que estas iniciativas devem ser pensadas para todos, no conjunto ou pela articulação de múltiplas atividades complementares.  

Apesar da melhoria notória desconheço a sustentabilidade financeira desta aventura, tal como a ambiental que não deve menos importante. Uma pista de gelo pode ser altamente questionável do ponto de vista ambiental. Mas o certo é que são proporcionadas várias atividades gratuitas, acessíveis a todas as crianças, independentemente do poder de comprar das suas famílias. Há também atividades para adultos, variedade e qualidade crescente nos comes e bebes disponíveis. De salientar também a oportunidade dada às associações culturais e de solidariedade social em participar, e assim reunir apoios para as suas atividades. 

Voltando ao que se presencia nos tais mercados mais a norte, aqueles que influenciam o que por cá fazemos, ainda falta trazer a conjugação do mercado regular com o mercado de Natal. A minha sugestão é que isso seja incluído num próximo passo, em que possamos comprar também produtos locais e diferenciados por quem os produz. Seria uma forma de complementar o comercio tradicional do centro da cidade. Com esta adição ainda mais pessoas seriam atraídas. Seria uma forma de garantir mais sustentabilidade ambiental, uma vez que consumir o que se produz localmente, com produtos da época, é um caminho inevitável para reduzir impactes ambientais. Fica a sugestão. 

Nota: texto publicado no Diário de Leiria

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

E que tal uma rede sustentável de praias fluviais em Leiria?

Leiria não tem nenhuma praia fluvial formal, mas tem potencial para ter várias. Se tantos outros concelhos têm nós também poderíamos ter, pois temos inúmeras ribeiras e ribeiros, dois rios, e várias lagoas. Mas claro, para isso, teria de haver um planeamento e gestão desses recursos naturais para poderem ser verdadeiras praias fluviais. Os custos de investimento poderiam ser largamente compensados com os naturais retornos que uma eficiente gestão traria. 

Dizem algumas pessoas, provavelmente desinformadas do potencial das praias fluviais, que estamos demasiado perto do mar para precisarmos delas. Leiria tem uma praia e mesmo as praias dos outros concelhos ficam a poucas dezenas de quilómetros. No entanto, uma coisa não substitui a outra, especialmente com o tipo de condições marítimas balneares das praias da região para banhos. Quem gosta de desfrutar de um banho ou nadar nem sempre o pode fazer nas nossas praias. E o fresco, associado à habitual envolvente verde das praias fluviais, proporciona escapatórias ao calor abrasador e permite uma relação única com a natureza. Ainda assim, discordando do pensamento que considera as praias fluviais desnecessárias, muitos de nós gostávamos de as ter em Leiria, especialmente porque já desfrutámos delas noutros locais. 

Também não nos podemos esquecer que todas as deslocações, especialmente em veículos automóveis, geram impactes ambientais negativos. Ter uma praia fluvial por perto permitiria mitigar isso, tal como garantir reservas de água permanentes, cada vez mais importantes em contexto das alterações climáticas.

Imaginem então que existiam várias praias fluviais e ciclovias a ligar todos esses locais aos pontos de interesse do concelho. Imaginem parques de campismo, hotéis e infraestruturas de apoio perto destes locais. Imaginem praias fluviais urbanas e rurais, algumas associadas a património cultural, outras a aproveitar locais naturais únicos: Lapedo, Junqueira, Fontes, Cortes, Caranguejeira, Ervedeira, e muitos outros locais. E uma praia mesmo no centro de Leiria? Parece utopia, mas cidades como Estocolmo conseguiram tornar as suas águas superficiais urbanas próprias para nadar e até beber sem tratamento. 

Com esta rede de praias podíamos aproveitar uma franja importante do turismo cultural, gastronómico e balnear multifacetado para diversificar a nossa economia. Aí sim, Leiria seria distintamente atrativa para o lazer e férias durante todo o verão, em quase todo o seu território. Seria ainda mais atrativa pela qualidade de vida que teria para os seus habitantes.

Se esta fosse uma estratégia de desenvolvimento territorial para Leiria iria garantir-se a proteção ambiental dos nossos recursos naturais. A bacia hidrográfica do Lis teria de ser despoluída. A nossa qualidade de vida aumentaria imenso. 

Não temos de copiar os outros, mas devemos aproveitar o que temos de único, obtendo valor das nossas condições naturais, sem as depreciar. Isso é sinónimo de sustentabilidade. 

Texto publicado no Diário de Leiria

domingo, 5 de maio de 2019

Quando o associativismo cresce contra a sua natureza

As associações e a livre organização de forma voluntária para implementar ideias e defender causas coletivas podem ser atividades de grande mérito. Quando estas são feitas de forma interessada nas causas e desinteressada nos ganhos pessoais diretos produz-se a receita para o sucesso do voluntariado e do associativismo, pelo menos durante algum tempo. Quando este modelo se aplica ganham todos, quem faz e quem beneficia do trabalho realizado. No entanto há sempre a pressão do financiamento das atividades e do poder que elas trazem a quem as dirige.

Se os projetos de voluntariado, de inovação social realizados por associações sem fins lucrativos, pretendem ter futuro têm forçosamente de procurar a sua própria sustentabilidade financeira. Há imensos custos, mesmo em regime de voluntariado. Há forçosamente custos fixos, sendo as sedes e instalações as maiores dificuldades. Por outro lado, para inovar e manter no tempo as suas atividades há que optar. Ou passam a um regime semiprofissionalizado (ou até mesmo profissionalizado) em que existem atividades e recursos humanos remunerados ou então necessitam de uma grande rotatividade de voluntários. Seja como for, garantir salários ou estar constantemente a receber, formar e preparar novos voluntários para as atividades é trabalhoso, consumidor de recursos e tempo.

Os municípios podem ajudar ao disponibilizar infraestruturas às associações, para serem utilizadas enquanto existir atividade. Assim uma das principais dificuldades fica garantida. O resto pode ser conseguido com voluntariado e projetos desenhados de forma sustentável, com receitas próprias. O recurso crítico, apesar de tudo, são as pessoas. Para que se possam envolver nos projetos há que garantir um bom ambiente humano, uma gestão interna democrática e sentido de justiça. Acima de tudo importa também que as pessoas se divirtam e sintam realizadas no que fazem, como isso evita-se a saturação.
Se as associações pretenderam enveredar por outros rumos mais profissionalizados há um perigo à espreita. O vil metal pode corromper os corações mais bondosos e as boas intenções eclipsam-se perante os dígitos das contas bancárias. As associações são incentivadas a implementarem modelos semiprofissionais, assumir a inovação social, crescer nos processos burocráticos e depender de financiamentos exigentes. Com isso arriscam desvirtuar-se: a liderança passa a ser uma forma de aceder a prestigio e dinheiro, convertendo os voluntários em mão-de-obra barata. Apesar da via profissionalizada permitir trazer dinheiro para as associações é um risco grande de destruição do poder coletivo que criou os projetos, as ideias e as boas intenções. Corre-se o risco de fulanizar e de apropriações individuais do que inicialmente era coletivo. 

Deveríamos pensar nisto. Que tipo de associações queremos ter e se realmente as queremos transformar em empresas. Será sustentável do ponto de vista associativo? Talvez não. O dinheiro é preciso, mas as pessoas são mais importantes.

Texto publicado no Diário de Leiria

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Para sociabilizarmos não basta estar com outras pessoas

Nesta quadra vamos estar, se tivermos uma vida social normal, em múltiplos eventos sociais. Com isso estou a contar todo o tipo de festividades e encontros, desde os momentos em que vamos tomar um café a dois até às festas de multidões. 

Todos estes ajuntamentos humanos têm razões próprias de ser, e ocorrem por diversos motivos. A duração e objetivos são dos mais variados. No entanto, todos eles, para funcionarem, para serem agradáveis, obedecem a determinados sistemas de regras sociais, mais ou menos formais. 
Juntar pessoas num mesmo espaço e esperar que a magia da sociabilização aconteça é puro otimismo. Todos os grupos necessitam de um sistema de comunicação e relacionamento para que a sociabilização possa fruir. Por vezes até uma conversa continuada é difícil de garantir.

Nos dois últimos textos referi-me aos jogos como ferramentas para garantir animação nas festividades. Mas não explorei o porquê disso. A utilização de jogos relaciona-se com algo que se estuda nas ciências sociais e humanas, especialmente nos estudos da colaboração. Para haver colaboração é necessário partilhar um determinado sistema de valores e de regras sociais.  Os jogos garantem isso, o sistema de regras e a dinâmica que, nem que seja por um breve momento, submete todos os que queiram jogar ao mesmo sistema de sociabilização e expressão individual. Se esses jogos forem potenciadores de boa disposição, se incentivarem a criatividade e a comunicação, servem de desbloqueadores para os nossos processos de sociabilização. Sociabilizamos naturalmente enquanto espécie, embora isso seja potenciado pelas tais regras e valores, caso contrário facilmente podemos cair na apatia ou até conflito e repulsa alheia.

Juntar simplesmente pessoas para que elas trabalhem em equipa não é suficiente. Há que definir o sistema de funcionamento do grupo, as regras e os objetivos, mas de forma a que acomode a individualidade e a necessidade de flexibilidade para a identidade coletiva em construção, tal como dos objetivos para os quais o dito grupo existe, sempre sem esquecer a força do individualismo. 

Assim, nestas festas de final de ano, não basta comer e beber em conjunto. Isso só ajudará, se em torno da comida se gerar uma conversa - uma análise do que se come e como come pode ser uma opção -, se existirem canais de participação para garantir essa expressividade. Se forem simplesmente comer, como ato mecânico de encher a barriga, em grupo, pouco irão sociabilizar. Recomendei jogos e recomendo igualmente mais coisas, tão simples como uma conversa que possa ser partilhada na construção de uma identidade de pertença coletiva, sobre algo que envolva as pessoas, as traga para o momento de sociabilização, sem entrar em monólogos e dominâncias de uns sobre os outros.
Não temos de ficar em grupo isolados enquanto adoramos os telemóveis. Quando isso acontece é sinal de que o sistema de valores e de partilha não está definido, porque estão simplesmente uns com os outros num vazio relacional. Já pensaram nisso? 

Texto publicado no Diário de Leiria

Alguns exemplos de Jogos de Tabuleiro sustentáveis para este Natal

No meu último texto comprometi-me a recomendar alguns jogos de tabuleiro modernos como possíveis prendas de natal, por serem sustentáveis. Mas queria salientar que existem muitas outras opções sustentáveis, especialmente quando optamos por ofertas não materiais. 

Apesar de tudo, os jogos de tabuleiro têm sempre algum impacte ambiental. No entanto, é muito menor que outras opções. Não gastam energia na utilização, têm baixos níveis de obsolescências, altos níveis de durabilidade e podem ser facilmente vendidos e trocados, evitando gerar resíduos depois de, eventualmente, lhes termos esgotado a jogabilidade.  Relembro também as restantes dimensões que os tornam produtos do desenvolvimento sustentável, nomeadamente a dimensão social que têm e a associação a uma nova industria criativa, tal como a promoção cultural da literacia através dos designs de qualidade. Mas o objetivo deste segundo texto passa por recomendar diretamente alguns jogos que podem ser oferecidos ou jogados neste natal, incutindo indiretamente mais sustentabilidade, e convívios mais animados nesta quadra.

Poderia recomendar centenas de jogos, mas vou referir apenas alguns exemplos, dos que são mais baratos e acessíveis, de várias editoras e que podem ser adquiridos com facilidade em Portugal e na região de Leiria. Mas se os quiserem experimentar primeiro podem sempre passar pelos encontros gratuitos dos Boardgamers de Leiria.

Dobble. Jogo em que cada carta tem um objeto em comum com todas demais cartas. O jogador que conseguir descobrir primeiro o seu objeto comum avança no jogo. Este jogo pode ser jogado por crianças a partir dos 3 anos, tal como adultos, mudando a velocidade. 

Catan. Jogo de gestão de recursos, planeamento estratégico e espacial. Os jogadores devem dominar a estatística das localizações para produção de recursos, tal como a arte da negociação, que lhes permite expandir os seus domínios sobre o território. Pode ser jogado por crianças a partir dos 8 anos, e é muito popular entre adultos. 

Dixit. Jogo de narração criativa. Os jogadores recorrem a cartas ricamente ilustradas de forma surrealista para contarem pequenas histórias. Estimula-se a comunicação de forma estratégica e criativa. Indicado para toda a família, podendo ser jogado por 12 pessoas ao mesmo tempo.

Passa o desenho. O jogo do telefone avariado, em que cadernos vão rodando pelos jogadores, criando sequencias hilariantes de palavras e desenhos. É comum chorar a rir no final de uma rodada. 

Mistacos. Jogo de empilhar cadeiras, em que se treina a destreza e um certo nível de estratégia estrutural. 

Skull
. Jogo de bluff com muita tensão, que pode ser jogado rapidamente até 6 pessoas, dada a sua simplicidade. Os jogadores jogam ocultamente peças ou tentam adivinhar por leilão as peças dos adversários, tentando evitar as caveiras.

Soldado Milhões. Jogo de cartas em que cada jogador deve gerir os seus recursos, tentando ganhar cartas de pontos em cada rodada por leilão. Todos começam com os mesmos recursos para os leilões.

Ofereçam produtos sustentáveis no Natal: jogos de tabuleiro modernos

O Natal está a chegar e importa falar de sustentabilidade. Longe de mim querer ser moralista e dizer que esta época é o cúmulo dos vícios consumistas e da hipocrisia. Até pode ser, mas também é muito mais que isso. Acho mesmo que é pena ser somente uma vez por ano, mas antes uma vez que nenhuma. No pior dos caos, pelo menos nesta época somos incentivados a pensar nos outros.

Por isso, quase todos vão tentar escolher os melhores presentes para oferecer, fazendo esticar o orçamento. Proponho acrescentar também, às limitações orçamentais, a preocupação para com a sustentabilidade. Ou seja, será que aquilo que vamos oferecer é sustentável em todas as vertentes do termo: ambientalmente, socialmente, culturalmente e economicamente? 

Proponho que considerem os novos jogos de tabuleiro por serem ambientalmente mais sustentáveis, pois são construídos em materiais facilmente recicláveis e têm baixa taxa de obsolescência. Se o jogo for bom vai dar anos de diversão, podendo ser vendido depois caso não vos interesse mais. Isso será possível porque os materiais tendem a durar e o design do jogo não se desatualiza se for bom. Esse jogo, por essa razão, só se transformará em resíduo depois de muita utilização. Estamos perante uma vertente da economia circular, em que os produtos são constantemente utilizados, na mesma ou em novas formas, evitando-se a produção de um resíduo sem o máximo aproveitamento. Para quem tenha mais curiosidade, estes conceitos estão a ser abordados em Leiria no projeto Urbanwins. Por outro lado, estes jogos não consomem energia para serem jogados, logo baixam consideravelmente a sua pegada ecológica, tal como dispensam qualquer outro tipo de periférico eletrónico. Uma mesa, cadeiras, ou até o chão servem para os jogar. 

Os jogos de tabuleiro são potenciadores do convívio social presencial, promovendo e reforçando os laços sociais, com toda a riqueza da comunicação multidimensional. Se uma imagem vale mais que mil palavras, um olhar transmite mensagens únicas. As emoções sentem-se mais ao vivo e com estes jogos podemos sentar famílias inteiras à mesa, promovendo a aproximação intergeracional. 

Do ponto de vista económico os jogos de tabuleiro são muito relevantes, pois podemos comprar produtos nacionais, e por vezes até locais. Podemos apoiar as editoras e criadores, que geram emprego e uma produtividade concreta, real e exportável. Apoiamos uma industria criativa e abrimos novos caminhos para mais desenvolvimento, pois os jogadores de hoje podem ser os criadores de amanhã. Por ouro lado, o mesmo produto pode ser usado por varias pessoas, podendo ser uma prenda coletiva mais barata.

Até agora falei muito no abstrato. Não recomendei um único jogo. Deixo aos leitores a liberdade de refletirem sobre isso. Se forem procurar por estes novos jogos vão encontrar uma imensidão de novas criações. Não vos quero retirar esse prazer. Mas também não vos quero deixar órfãos destas ideias e sugestões. Por isso, num próximo texto, irei fazer recomendações concretas resumidas. Até daqui a 15 dias!

Texto publicado no Diário de Leiria

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Todos andamos no terreno e na escola da vida

Ainda há quem queira alimentar guerras entre os académicos e não académicos. Tendem a ser aqueles que não prosseguiram estudos ou que não conseguem converter os estudos que têm em algo construtivo, não tendo compreendido a utilidade daquilo que estudaram, a alimentar este conflito sem sentido.

Um académico tem de validar os seus conhecimentos na realidade, no mundo em que vive, mesmo que isso seja distante como uma estrela. Quem quiser fazer ciência, e produzir conhecimento, tem de estar sempre no terreno, próximo das informações associadas ao seu objeto de estudo. É na transposição da teoria para a realidade, para múltiplas práticas, que a ciência cria conhecimento capaz de gerar novos desenvolvimentos e concretiza o seu papel social. Não podemos dispensar o conhecimento teórico, pois serve para testar de forma abstrata problemáticas da realidade e testar ideias, evitando as consequências e erros de quem experimenta sem saber as consequências do que faz. 

Dependemos fortemente do conhecimento científico. Mesmo quem nada percebe de determinadas áreas disciplinares como a física, química e muitas outras, utiliza diariamente o produto comercializado desses conhecimentos acumulados. Quem diz das ciências ditas exatas diz o mesmo das ciências sociais e humanas, pois todos os dias refletimos, invocamos a nossa história e não sabemos viver sem ser em sociedade. Muitos outros exemplos não faltariam.

Tendemos a criticar ou desvalorizar o que não compreendemos, ou aquilo que muda o nosso status quo, reduzindo poder e influência. O que é diferente é visto com desconfiança. A novidade pode ser ameaçadora para os poderes instituídos. Quem critica outrem que tem mais conhecimentos em determinada área, acusando essa pessoa de ser académico, teórico e de não conhecer a realidade revela, primeiro que tudo, incompreensão. Ou o tal sábio é arrogante e usa os seus conhecimentos sem grande inteligência, ou então quem desdenha é incapaz de compreender o valor desse saber por falta de conhecimentos científicos prévios. Também pode ser simplesmente inveja, a mera hipocrisia de criticar algo que afinal se valoriza e deseja ter.

Apesar da inveja ser uma coisa muito presente na sociedade portuguesa, importa ir além dessa fatalidade. Não faz qualquer sentido colocar os cientistas de um lado e os não iniciados/formados em ciência no noutro, pois estamos a falar de uma forma de conhecimento entre outras. A ciência pretende compreender a realidade, tentando contribuir para melhorar a vida humana. Qualquer estudo científico precisa de provas de validação. Se há fonte de conhecimento que valoriza a experiência é a ciência, estruturando as informações experimentais.

Quer sejamos cientistas, sábios ou simplesmente todos os outros, não precisamos de ir para o terreno porque todos vivemos nele. Todos fazemos e andámos na escola da vida enquanto vivermos: é inevitável. Se não nos encontramos no dito terreno e na dita escola da vida mais vezes é porque não comunicamos.

Texto publicado no Diário de Leiria em 15 de fevereiro de 2018

Jogos de tabuleiro modernos: uma aposta no desenvolvimento sustentável

Há uma nova tendência que se tem afirmado no estrangeiro e que agora vai chegando a Portugal. Apesar da indústria de videojogos ser imensa, ter um poder económico e cultural massivo, os jogos de tabuleiro não desapareceram. Depois de algumas décadas de reajuste os jogos de tabuleiro souberam reinventar-se a si próprios, tanto que hoje se apelidam de “modernos” para melhor explicar o fenómeno em causa.

Há várias razões para este ressurgimento, que se deve muito à influência alemã, sendo um dos grandes polos de influência da indústria, tanto no design/produção como no consumo. A partir dos anos 80, quando o setor apresentou sinais de degradação, em vez de desistência surgiu um investimento grande em design. Os jogos de tabuleiro passaram a ser peças de design aperfeiçoado e diferenciado, com autores para a conceção mecânica da ideia e para o design gráfico e dos demais componentes materiais. Hoje, na capa de um jogo de tabuleiro moderno, encontramos de imediato o nome dos autores, tal como ocorre nos livros. Os jogos também se especializaram, com títulos adequados a diferentes idades e gostos temáticos.

Estes novos jogos não são uma resposta reacionária à tecnologia, muito pelo contrário. Eles só atingiram a escala e qualidade atual porque as novas tecnologias de informação e comunicação permitiram trocar facilmente informações entre criadores, produtores e consumidores desta nova tendência que se transformou em passatempo de milhares de pessoas. O desenvolvimento dos próprios jogos também melhorou com as novas tecnologias.

As vantagens diferenciadoras dos novos jogos de tabuleiro explicam o seu sucesso. Ao contrário de muitos videojogos, os jogos de tabuleiro aproximam as pessoas, fomentando a sociabilidade presencial. Nos bons jogos os melhores componentes são as pessoas e seus comportamentos. Com isso surgem imensas potencialidade de utilização lúdica ou como ferramentas adaptadas a determinados contextos. A título de exemplo, utilizámos no projeto UrbanWins parte de um destes jogos de tabuleiro para dar início ao processo colaborativo.

Do ponto de vista ambiental estes jogos são bastante sustentáveis. Podem ser feitos de materiais reciclados, têm um grande tempo de utilização, menos suscetíveis aos ciclos de obsolescência, não precisam de energia e podem ser jogados por várias pessoas em simultâneo. A única energia associada à sua utilização são as emoções e atividades cognitivas, o que transforma estes jogos em promotores de exercício mental. Do ponto de vista económico os jogos de tabuleiro são também uma oportunidade para as industrias criativas, de pequena e média escala.

Não foi por acaso que referi o potencial dos jogos de tabuleiro nas vertentes do desenvolvimento económico, ambiental e social. Estes são três pilares básicos do conceito de desenvolvimento sustentável, aos quais se foram juntando mais vertentes, todas elas compatíveis com as possibilidades dos jogos de tabuleiro. Não tenho dúvidas de que os jogos de tabuleiro fazem parte do nosso futuro, que tem forçosamente de ser mais sustentável.

Texto Publicado no Diário de Leiria em 4 de janeiro de 2018

Ensaiar um processo colaborativo: caso do projeto UrbanWins

Como espécie social que somos, colaborar é algo que nos é natural. Mas no que toca à tomada de decisão pública, política e coletiva a cooperação e colaboração dificilmente surgem naturalmente. Dominam, acima de tudo, as vicissitudes das hierarquias e organização do poder formal e vertical na estruturação das nossas organizações e sociedade no geral. Qualquer coisa que mude isso terá sempre reações.

A primeira dificuldade é a semântica. Os termos e expressões utilizadas podem ser confusos. Tornar um processo de decisão pública participativo não é o mesmo que fazer um processo colaborativo ou cooperativo. Participar implica uma ação muito mais individual, podendo ser passiva ou apenas unidirecional. Participar pode simplesmente implicar estar presente, aprovar ou reprovar. Vemos isso no sistema eleitoral vigente em Portugal, em que se incute a participação como forma de validar ou escolher, sem componente ativa produtiva ou criativa. Já o termo colaborativo implica uma intervenção coletiva. Também pode ser passiva, embora colaborar pressuponha algum tipo de ação, em que se contribui para o resultado final. Ou seja, não é apenas uma validação da ideia ou projeto de outrem, mas o contributo para um objetivo que depende do envolvimento dos vários sujeitos.

Então, quando vemos utilizar os conceitos de participativo e colaborativo na mesma frase podemos ficar de imediato desconfiados. Será que estão a ser erradamente utilizados como sinónimos ou realmente se está a propor implementar um processo com vários níveis de envolvimento cívico?

No projeto UrbanWins faz-se um esforço para que a participação dos cidadãos na identificação das prioridades na problemática dos resíduos urbanos crie um processo colaborativo. Neste projeto os cidadãos são convidados a participar ativamente, sendo que os seus contributos têm forçosamente de ser debatidos e validados em grupo. Procedem-se a múltiplas votações individuais e várias etapas de trabalho colaborativo, aprofundando as ideias mais votadas. Este tipo de procedimento centra-se muito na força das ideias e da sua capacidade de ultrapassarem várias fases de validação e votação, anulando os efeitos negativos do individualismo. Dificilmente assim uma ideia será apenas boa pelo simples facto de ter sido apresentada pela pessoa X ou Y. Num mero processo participativo os efeitos individuais de notoriedade do proponente, capacidade comunicativa ou outro tipo de poder individual e de liderança sobre o grupo poderiam fazer com que uma ideia mais fraca, que não fosse do interesse comum ou tivesse fragilizada tecnicamente, pudesse vencer. Através destas metodologias isso evita-se em grande medida.

Atualmente as metodologias colaborativas são aplicadas em contextos mais criativos e inovadores, sendo que os poderes mais tradicionais tendem a evitá-las, chegando mesmo a ridicularizá-las. É por isso que a cidadania ativa deve tentar abraçar estes procedimentos, evitando os poderes de condicionamento cívico de determinados poderes instituídos.

Texto publicado no Diário de Leiria em 21-12-2017

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Democracia – Uma Utopia contemporânea?

 
Ao contrário do que se possa pensar, o sistema político democrático era altamente criticado pelos intelectuais da época quando foi inicialmente instituído. Grandes pensadores e filósofos criticaram abertamente a democracia da época enquanto sistema de governo. Basta pensarmos na célebre tríade de pensadores gregos atenienses: Sócrates, Platão e Aristóteles. Consta que o próprio Sócrates foi condenado à morte por questionar as falhas da democracia. As críticas que se faziam eram, em parte, replicáveis ainda hoje. Cada um, no seu estilo e segundo a sua própria sistematização filosófica, criticava o tipo de decisões que resultavam da escolha democrática, com votações quase sempre desinformadas e facilmente manipuláveis por quem verdadeiramente detinha o poder, na sombra. A condenação à morte do próprio Sócrates é disso exemplo, tal como a incompetência da gestão do conflito contra Esparta durante a Guerra do Peloponeso, que arruinou a prospera polis ateniense. Não é então estranho que esses e outros pensadores tenham concebido sistemas de governo alternativos.

Sempre que se tenta avaliar a democracia enquanto sistema numa discussão é certo que alguém vai de imediato citar Winston Churchill, dizendo que “a Democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as outras”. De facto nenhum outro sistema provou ser melhor, pelo menos para a esmagadora maioria da população. No entanto, a aplicação da democracia e a concretização do seu potencial máximo continua, de um certo modo, a ser uma utopia. Exemplos, mais antigos e recentes, próximos e distantes, não faltam.

Tal como na antiguidade clássica, a democracia real, embora a nossa seja muito mais abrangente - devido ao sufrágio universal e outros direitos e deveres -, continua a ser defeituosa. Os votantes continuam a ser manipulados e não é certo que se escolham sempre os melhores. Continua a faltar a devida formação/prática cívica e política como fundamento da tomada de decisão, para serem os próprios cidadãos (ou eleitores de um ato particular) a criarem o suposto sistema de autogovernação. Uso este termo pois em democracia plena não deve existir, por princípio, aristocracia ou outra classe ou grupo social à parte destinada à governação, cada cidadão pode aspirar a esse cargo. No entanto, para a democracia ser verdadeiramente universal e funcional é essencial garantir certas condições mínimas, tais como: segurança, saúde, educação, liberdade, informação e adequados meios de subsistência. Enquanto isso não for totalmente garantido, a todos em igualdade de oportunidades, a democracia fica por concretizar: torna-se uma utopia contemporânea.
 
Nota: Texto publicado no Jornal de Leiria em 18 de setembro de 2014

sexta-feira, 28 de março de 2014

Portugal - um país de pobres

Soubemos recentemente que 1 em cada 4 portugueses é pobre, e ainda por cima o limite para se ser considerado pobre passa por viver com um valor mensal abaixo dos 409€. Imagine-se então se fosse, por exemplo, um valor 50% acima disso, uns 600€ para concretizar. Parece-me a mim que a vida não seria fácil também para essas pessoas com esse tipo de rendimento, e se calhar seriam a maioria da população. Portugal é cada vez mais um país de pobres. É um facto.


Link para o vídeo
 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Hoje até os Mortos foram Roubados

Dia 1 de Novembro de 2013 foi um dia de assalto sem precedentes. Assaltaram-se vivos e mortos, em todas as gerações – dos vivos é claro.


Hoje, por decisão do Governo, deixou de haver feriado, morrendo com isso uma longa tradição de origens ainda mais antigas que o cristianismo, ou seja, mais de 2000 anos. Impediu-se o continuar de uma tradição que vinha já de tempos celtas e sobreviveu adaptada durante toda a era cristã até aos dias. Impediu-se que as crianças por Portugal continuassem a tradição de irem, de porta em porta, “pedir bolinho”. E, talvez mais grave que tudo o resto, impediu-se que os vivos visitassem, por todo o país, neste dia dedicado aos mortos, os familiares e amigos desaparecidos.

Não é fácil conseguir um roubo de tão grande impacto, especialmente quando até os mortos são roubados.

Algumas curiosidades sobre este feriado no blogue A Busca pela Sabedoria:

terça-feira, 18 de junho de 2013

Feira de Maio – O Renovar da Magia e das Estórias

A partir de uma certa idade admito que a Feira de Maio começou a gerar em mim sentimentos contraditórios. Não pretendo fazer generalizações, mas poderá haver quem, à sua maneira, sinta ou tenha sentido a mesma opinião paradoxal em relação à dita feira.
Se, para mim, antigamente a Feira de Maio tinha uma magia que só era acessível porque a via com olhos de criança e com uma imaginação inocentemente ilimitada, anos mais tarde o sentimento mudou. Já na adolescência, os carroceis, os doces e os brinquedos passaram a não despertar o interesse de outrora. Entre a música, por vezes ritmada até ao absurdo, carros de choque e afins desenhavam-se outras fantasias próprias de outras idades. Na Feira de Maio ensaiávamos histórias de amor desajeitadas, importantíssimas para o nosso desenvolvimento emocional, numa altura em que tentávamos uma adaptação aos novos corpos de adulto.

Fonte da Fotografia: http://newscentermco.blogspot.pt/2010/05/feira-de-maio-leiria.html

Mais tarde, a feira foi ganhando pó e perdendo o interesse. Mas quase sempre por lá passei, procurando réstias dos sonhos de antigamente, desvanecidos e longínquos. Voltava lá, seguindo um ritual, ainda que no fim de cada ida dissesse: isto já não me diz nada… Mas no ano seguinte regressava. Provavelmente retornávamos muitos - eu e outros como eu -, movidos por sentimento paradoxais semelhantes.
Este ano voltei de novo! Fiquei surpreendido! A Feira de Maio mudara! Mudara de sítio e ganhara novos contornos, parecendo querer modernizar-se e adaptar-se às necessidades dos nossos tempos. A Feira ganhou com a qualidade das infraestruturas disponibilizadas, e até se abriu com ela o Estádio à comunidade, rumo a uma utilidade que muitos exigiam há muito tempo. Este foi um passo simbólico importante para que no futuro a Feira evolua e se continue a desenvolver, mantendo as suas características tradicionais, mas adaptando-se à Leiria e aos leirienses de hoje e de amanhã.
Para o ano quero voltar, e nos próximos também, quem sabe trazendo aqueles que pela idade sentem como ninguém a magia especial da nossa Feira de Maio.
 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Jogos sustentáveis para Sociabilizar e Desenvolver

Os jogos de tabuleiro estão muito longe de ser uma novidade. Basta pensar nos séculos de sucesso do xadrez.

No entanto, nos últimos anos têm surgido no mercado nacional cada vez mais opções para jogar em sociedade, à mesa e sem gastar energia. Para além dos conhecidos jogos de tabuleiro mais tradicionais e habituais, surge agora uma imensa panóplia de jogos de maior complexidade e iteratividade, onde cada partida é sempre diferente e desafiante, sem que a sorte seja um fator preponderante. Estes novos jogos, tendencialmente de origem germânica, são uma novidade capaz de divertir, entreter e estimular com desafios estratégicos, públicos heterogéneos. Esses jogos, com temas e mecânicas diferentes para todos os gostos, criam uma competição iterativa onde vence quem melhor souber gerir e otimizar os recursos disponíveis, desenvolvendo-se rumo aos objetivos de vitória em causa, atendendo sempre às opções e relações com os demais jogadores. Existem jogos tão diversos como: gestão agrícola; redes energéticas; transportes; comércio; construções de cidades; desenvolvimento de civilizações; entre muitos outros.
Insisto na divulgação destes jogos pois criam novas oportunidades de entretenimento e até de desenvolvimento cognitivo. Estes jogos fomentam exercícios intelectuais complexos e divertidos, modos de sociabilizar entre amigos, e evitar as já imensas horas que passamos em frente a monitores e afins. São uma oportunidade para as próprias famílias, dispensando os excessos em frente a televisões, computadores e videojogos. Não é por acaso que os jogos de tabuleiro ganham novo terreno e complexidade, surgindo cada vez mais como alternativa a outros modos de entretenimento caseiro. Podem aproximar amigos, pais e filhos, de um modo construtivo e sustentável.

O sucesso (e origem) deste tipo de jogos no centro e norte da europa, especialmente na Alemanha, pode levar-nos a outras reflexões. Primeiro, porque são povos muito mais habituados a sociabilizações entre portas; e depois porque são países que se caraterizam por diferentes tipos de organização e de empreendedorismo implícitos. Isto poderá não querer significar nada, e até nem haver qualquer relação entre os hábitos lúdicos e as realidades socioeconómicas desses países, mas não deixa de ser curioso e de dar que pensar!
Por cá a realidade vai mudando. Começam a surgir jogos complexos de tabuleiro nacionais, e na nossa região, na Nazaré, ocorre todos os anos uma convenção nacional de jogos do género. Vale a pena experimentar!
Texto publicado no "Diário as Beiras" e "Diário de Leiria"

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Um exemplo para não generalizar sobre gerações


Entre ontem e hoje presenciei dois exemplos, muito concretos,  que obrigam a reflectir quando se começam a fazer juízos de valor e generalizações geracionais. 

As minhas vizinhas do lado, que muitas vezes abusavam nos barulhos nocturnos, mas que se mostraram conscientes quando conversei com elas sobre o seu comportamento  de modo a que percebessem como incomodavam todos os demais vizinhos, ontem deixaram na nossa porta um bilhete avisando que iriam fazer barulho nesse dia, mas só até à meia-noite, justificando que haveria um aniversário lá em casa. Perante isto, este ato responsável e de respeito para com o outro, quem pode dizer que o respeito cívico morreu?
Por outro lado, acabo de vir do cinema, tendo assistido a um musical, sentado à frente de um grupo de jovens da mesma idade que as minhas vizinhas. Apesar de termos avisado para o facto de estarem a fazer demasiado barulho, continuaram a conversar sem sequer baixarem a voz, apesar de um deles os tentar chamar à razão. Só se calaram quando porque abandonaram o filme já quase perto do fim. No final reparei que tinham deixado uma quantidade impressionante de lixo, da comida e bebida que tinham levado para dentro do cinema, no chão.
Com estes dois exemplos, mas poderia haver muitos mais, só podemos concluir que, nas gerações, como em muitos outras casos, não devemos fazer generalizações, e tomar a parte pelo todo.


terça-feira, 25 de setembro de 2012

Porque prevalecem os comentários negativos?

Em tempos arrisquei, para outro blogue, um ensaio sobre as Redes Sociais da Internet (intitulado de: "Serão as Redes Sociais um Perigo Intelectual?"). Nessas palavras socorri-me de alguns especialistas que referiam o potencial, devido ao modo como se transmitem as mensagens escritas e como isso poderia levar a erros de interpretação, de se extremarem posições e de se criarem conflitos entre os intervenientes virtuais. Como utilizador regular da maioria das mais importantes redes sociais – as que persistem e as que derrocaram no esquecimento e marasmo, com o tempo – tenho vindo a sentir um comportamento curioso da parte das pessoas a quem estou ligado nessas redes. Não sei se será um comportamento típico dos portugueses, se será algo universal, mas existe uma tendência evidente para se comentarem publicações alheias quando o objetivo é fazer crítica destrutiva ou negativa. Quando à construtiva, os comentários tendem a diminuir, e para o reforço positivo ainda menos! Já tiveram essa sensação também?
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Redundâncias da Actualidade - criado em Novembro de 2009 por Micael Sousa





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