Surpreende-se Portugal com o peso de uma votação! As pessoas votaram e elegeram os “Homens da Luta”. Curiosa a surpresa, não a da vitória do grupo criado e liderado pelo humorista e músico Jel, mas a do despertar de algumas pessoas para o poder do voto. Será que serão precisos programas de televisão e Festivais da Canção para demonstrar que votando, em massa, podemos contribuir para o formar de um determinado resultado?
Mas será que se devem tirar leituras políticas sobre o vencedor do Festival da Canção de 2011? Bem, penso que sim, até porque tudo é política e todos a analisamos, mesmo que inconscientemente, nem que seja apenas política de humor – seguramente uma das perspectivas de análise mais válidas para este caso.
Os “Homens da Luta” que hoje conhecemos são apenas um produto e resultado de mais uma das muitas criações e personagens do humorista Jel. Do mesmo autor, há que relembrar a polémica banda de Metal intitulada “Kalashnikov” que defendia e prestava culto à guerra – também essa manifestação musical a usar de uma profunda ironia e sarcasmo para fazer um humor mais negro do que é habitual por cá. Para os telespectadores da Sic Radical, ouvintes da Antena 3, e navegantes de uma Internet menos convencional, ou até mesmo “underground”, “Neto e Falâncio” são conhecidos de há muito tempo, tal como a sua capacidade para “gozar” com as “canções de intervenção”. Simplesmente agora puderam sobressair e crescer, na forma de uma espécie de grupo musical de paródia, dada a conjuntura de crise que naturalmente faz elevar o clima de insatisfação popular, e com isso o ressurgimento da música de intervenção (nem que seja em jeito gozo).
O fenómeno “Homens da Luta” nasceu de personagens de rábulas de humor (conhecidas de um pequeno público) e cresceu devido às circunstâncias. Se as circunstâncias fossem outras provavelmente qualquer outra personagem de Jel poderia ter atingido a fama. Por exemplo, se estivéssemos a viver um período de insatisfação e agitação social em torno de mudanças e debates sobre condutas e opções sexuais, especialmente se se tratasse de homossexualidade ou questões de género, provavelmente poderia ter sido a personagem “Carlinhos – o Machista Gay” e não os “Homens da Luta” a trazer Jel para a ribalta. Quem sabe!?No fundo é como dizia o filosofo espanhol Ortega y Gasset: “o Homem é as suas circunstâncias”. Neste caso os “Homens” têm uma “luta” e uma oportunidade de atingir a fama e fazer humor devido às circunstâncias, podendo isso resultar de uma mera conjugação fortuita de acontecimentos, não havendo qualquer mensagem política profunda. Ou seja, tudo se resumir a mera política de circunstância.
(Texto publicado no Diário de Leiria em 2 de Março de 2011 e no Jornal de Leiria em 17 de Março de 2011)

