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sábado, 31 de dezembro de 2011

Vai uma prendinha de cidadania para garantir a providência?

A austeridade está ai, mas para o ano será ainda maior. Como responder a isso, especialmente quando o Estado, por via do Governo, deixar de garantir algumas funções que poderiam amenizar ou suavizar esse choque? O atual Governo, devido à crise e pela ideologia em que assentam as suas políticas, tenderá a acabar com a construção de um Estado Providência. 

Como nestas épocas de instabilidade a providência será cada vez mais necessária, provavelmente terá de ser a própria sociedade a encontrar as soluções para as atuais e novas privações. Com a redução do papel de intervenção e garante do bem-estar às populações por parte dos Estados, para garantirmos alguma providência teremos, especialmente em Portugal, de reinventar a Sociedade Providência. Deveremos então voltar ao passado e trabalhar em comunidade, para a comunidade, de modo a garantir um certo nível de providência? No passado isso era possível, por exemplo na construção de habitações, onde toda a comunidade ajudava na construção das casas dos vizinhos. Hoje, regulamentos e leis, que fazem todo o sentido em nome da segurança, qualidade e da redução dos impactes ambientais, patrimoniais e afins, dificultam muita da ajuda do coletivo. Hoje será praticamente impossível fazer uma habitação sem recurso a crédito, pois os prazos de obra não permitem “ir construindo”. Mas, mesmo assim, ainda muito se pode contribuir para uma dita Sociedade Providência, existem muitas maneiras de garantir a imperativa providência e compensar a não resposta Estatal. Não defendo que o Estado e a Administração Local Autárquica devam ser diminuídos nas suas responsabilidades, mas como os financiamentos, por todas as razões e mais algumas, tenderão a ser reduzidos, temos de encontrar alternativas para responder as dificuldades que vão passar muitos portugueses.
Para falar de cidadania, e de a relacionar com a Sociedade Providência, nada como alguns casos práticos para a exemplificar. Um exemplo simples e tangível pode ser: se tivermos um “buraco” na nossa rua, se formos reclamar a quem de direito e não houver dinheiro para reparar, uma solução será, com autorização das entidades responsáveis, fazer uma intervenção em jeito de trabalho voluntário e coletivo entre todos os moradores. Com esta opção dá-se uma lição de cidadania e um exemplo que poderá aproximar os cidadãos dos problemas da gestão pública e contribuir para um maior envolvimento na própria comunidade; dá-se um exemplo de “ir para além das obrigações” em prol de todos. Lembro outro caso recente de demonstração cívica na causa ambiental que poupou fundos públicos e foi para além das obrigações cívicas dos envolvidos: a iniciativa limpar Portugal. Muitos mais exemplos existem, tais como as recolhas de alimentos e outros bens para posterior distribuição. Assim, se seguirmos estes e outros exemplos, quando as coisas melhorarem – temos de esperar e fazer para que melhorem pois insustentável é viver sem esperança – os cidadãos poderão contribuir ainda mais e melhor para uma sociedade mais responsável - esperando que o Estado o seja também -, com mais empatia e capacidade de entreajuda. Nada como fazer para depois poder exigir!
Em jeito de conclusão e alusão à quadra festiva que vivemos: darmos uns aos outros outra atitude cívica e uma cidadania mais ativa será a melhor prenda para este Natal e para um ano novo que se avizinha difícil!

Texto publicado no Diário de Leiria em 22 de Dezembro de 2011

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O simbolismo de uma Greve Geral - impressões de Leiria

Um pouco perdido neste dia de greve parti a pé para o centro da cidade de Leiria. Palmilhei ruas, praças e afins e pouco vi de manifestações de greve. Viam-se uns quantos cartazes a apelar à mobilização, mas contestação nem sinal dela. No entanto notava-se muito menos movimento nas ruas. Em Leiria o descontentamento demonstrava-se pelo marasmo e inercia. Leiria estava em Greve? Acho que sim!

Pelo caminho não pude deixar de refletir sobre o porquê e objetivo desta greve, e com isso sobre a nossa sociedade. No fundo, em termos práticos quantificáveis, provavelmente, esta greve não serve para nada: ela não vai resolver o problema económico do país e as dificuldades que os trabalhadores vão ter em 2012, podendo até agravar tudo isso. Mas será que os problemas da nossa nação, aqueles dos euros, não advêm de outros problemas de outra natureza? E se o nosso problema se relacionar com défices sociais ligados à psicologia relacional individual e coletiva? Como se explica que muitos portugueses não compreendam o valor simbólico de uma greve, mesmo quando as razões que a justificam se prendem com perdas de direitos laborais arduamente conquistados ao longo de anos de justas lutas? Como aceitar que agora se deite para o lixo, sob a justificação de uma crise micro e macroeconómica difícil de compreender, associada à alta finança e à desgovernação pública, aquilo que nos permite “respirar”? Mas onde está a nossa cidadania ativa? Onde está a nossa empatia social? Não nos conseguimos colocar no lugar do outro quando o outro é em tudo igual a nós mesmos? Será isto algum défice de desenvolvimento cognitivo coletivo? Estarei eu também, com todas estas críticas, a ser incapaz de me colocar na pele alheia?

Não havendo qualquer atividade construtiva a fazer para contribuir para este dia que deve ser de protesto, decidi direcionar a minha Acão para outros lados: fazer greve ao consumo e potenciar a palavra comunicada. Bem, é o mínimo que posso fazer! Se no passado muitos foram os trabalhares sacrificados, alguns mesmo com a vida, para termos direito à greve e todos os demais direitos laborais (alguns que agora são "suspensos"), por respeito da herança, há que tentar ser consequente.
Este dia sem vencimento vai custar no final do mês, mas custará muito mais a muitos, isso não duvido pois a realidade de algumas famílias é chocante! Que mais justificações precisamos?! E não me digam que os símbolos não são importantes, ou não fosse isto um importante símbolo de valor altamente relativo: €.
Se na última Greve Geral o simbolismo e o objetivo eram pouco evidentes, pois o Governo tinha acabado de se demitir e as eleições estavam ai à porta, agora o caso é bem diferente. Agora este novo Governo, depois de esquecer as críticas ao excesso de austeridade do PEC IV e de fazer o contrário do que prometeu em campanha - quem esquece as palavras de Maio de 2011: "os portugueses não aguentam mais austeridade"; "os subsídios são intocáveis"; e "aumentar os impostos está fora de questão" - obriga-nos a fazer algo, nem que seja algo simbólico! As eleições são para daqui a muito tempo, e dificilmente haverá outro modo tão evidente de demonstrar o sentimento de descontentamento, e de revolta em alguns eleitores que se sentem agora enganados. Se na altura referi que uma forma de demonstrar o nosso desagrado era com mais trabalho, agora volto a dizer o mesmo. Os trabalhadores portugueses, apesar de serem alvo de tudo o que não motiva para mais produtividade, seguramente responderão com o habitual esforço para compensar as perdas de hoje, mas pelo menos poderão fazê-lo depois de terem demonstrado o seu desagrado! 
A Greve Geral não deve ser usada como folga ou férias, por isso para além de incomodar uns quantos reacionários pelas redes sociais, decidi fazer greve ao consumo. Será a meu "pseudo-ascetismo" do dia.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Fazer muito ou pouco em dia de greve?

Confesso que nunca fiz greve na vida. Como não participei em algo do género confesso que fico sem saber muito bem o que fazer. As razões são mais que muitas para fazer greve, nunca tal se justificou tanto, pelo menos durante os tempos em que tenho vivido com a consciência desperta. Mas a questão é a seguinte: que fazer num dia de greve?
Muita inacção temos tido enquanto povo, muita mais enquanto cidadãos. Então até podemos fazer greve ao trabalho, como modo de demonstrar o nosso legitimo descontentamento, mas que fazer com o tempo livre? Bem, vou decidir o que fazer, o que será melhor do ponto de vista cívico neste dia de greve...
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Redundâncias da Actualidade - criado em Novembro de 2009 por Micael Sousa





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