terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Para sociabilizarmos não basta estar com outras pessoas

Nesta quadra vamos estar, se tivermos uma vida social normal, em múltiplos eventos sociais. Com isso estou a contar todo o tipo de festividades e encontros, desde os momentos em que vamos tomar um café a dois até às festas de multidões. 

Todos estes ajuntamentos humanos têm razões próprias de ser, e ocorrem por diversos motivos. A duração e objetivos são dos mais variados. No entanto, todos eles, para funcionarem, para serem agradáveis, obedecem a determinados sistemas de regras sociais, mais ou menos formais. 
Juntar pessoas num mesmo espaço e esperar que a magia da sociabilização aconteça é puro otimismo. Todos os grupos necessitam de um sistema de comunicação e relacionamento para que a sociabilização possa fruir. Por vezes até uma conversa continuada é difícil de garantir.

Nos dois últimos textos referi-me aos jogos como ferramentas para garantir animação nas festividades. Mas não explorei o porquê disso. A utilização de jogos relaciona-se com algo que se estuda nas ciências sociais e humanas, especialmente nos estudos da colaboração. Para haver colaboração é necessário partilhar um determinado sistema de valores e de regras sociais.  Os jogos garantem isso, o sistema de regras e a dinâmica que, nem que seja por um breve momento, submete todos os que queiram jogar ao mesmo sistema de sociabilização e expressão individual. Se esses jogos forem potenciadores de boa disposição, se incentivarem a criatividade e a comunicação, servem de desbloqueadores para os nossos processos de sociabilização. Sociabilizamos naturalmente enquanto espécie, embora isso seja potenciado pelas tais regras e valores, caso contrário facilmente podemos cair na apatia ou até conflito e repulsa alheia.

Juntar simplesmente pessoas para que elas trabalhem em equipa não é suficiente. Há que definir o sistema de funcionamento do grupo, as regras e os objetivos, mas de forma a que acomode a individualidade e a necessidade de flexibilidade para a identidade coletiva em construção, tal como dos objetivos para os quais o dito grupo existe, sempre sem esquecer a força do individualismo. 

Assim, nestas festas de final de ano, não basta comer e beber em conjunto. Isso só ajudará, se em torno da comida se gerar uma conversa - uma análise do que se come e como come pode ser uma opção -, se existirem canais de participação para garantir essa expressividade. Se forem simplesmente comer, como ato mecânico de encher a barriga, em grupo, pouco irão sociabilizar. Recomendei jogos e recomendo igualmente mais coisas, tão simples como uma conversa que possa ser partilhada na construção de uma identidade de pertença coletiva, sobre algo que envolva as pessoas, as traga para o momento de sociabilização, sem entrar em monólogos e dominâncias de uns sobre os outros.
Não temos de ficar em grupo isolados enquanto adoramos os telemóveis. Quando isso acontece é sinal de que o sistema de valores e de partilha não está definido, porque estão simplesmente uns com os outros num vazio relacional. Já pensaram nisso? 

Texto publicado no Diário de Leiria

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Redundâncias da Actualidade - criado em Novembro de 2009 por Micael Sousa





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