quarta-feira, 24 de março de 2010

Estamos preparados para aumentar a produtividade nacional?

Como pode Portugal ser um dos países da União Europeia que mais trabalha, mas também, por outro lado, um dos que menos produz?

Independentemente de todas as possíveis causas, e haverá muitas seguramente, há uma que destaco e que, dada a conjuntura económica e social actual, tende a ser infelizmente agravada. Refiro-me a uma, disfarçada, mas gradual agravamento das condições de trabalho, sendo evidente, por exemplo, o aumento da carga horária a que cada trabalhar é sujeito actualmente. 


Muitas são as empresas que, independentemente de estarem em “crise” ou não, permitem que os seus colaboradores trabalhem horas de trabalho sem fim. Isso, provavelmente inconscientemente sem as devidas preocupações para com a saúde metal e física dos seus colaboradores que se sujeitam a esta nova realidade. Mas, verdade seja dita, muitos são aqueles que se sujeitam voluntariamente a este tipo insustentável de comportamento laboral, inconscientes das implicações que isso pode trazer para as suas vidas pessoais, para as empresas onde trabalham e para as suas famílias e amigos.

Esta problemática, proveniente dos intermináveis horários de trabalho, acaba por prejudicar tanto os trabalhadores, que enveredam por estes ciclos de trabalho desajustados, como, inevitavelmente, as próprias empresas que permitem que isso aconteça no seu seio. Pois, evidentemente, os maiores activos das empresas são os seus quadros de trabalhadores, e se esses colaboradores estiverem esgotados e desmotivados, dificilmente se conseguirá atingir os níveis de eficiência, produtividade e qualidade desejados.

O aumento da carga horária pode resultar, como constatamos todos os dias, numa série de malefícios vários e variados, entre eles: Jovens trabalhadores vítimas de esgotamentos e depressões; muitos desempregados sem oportunidades de trabalho, especialmente jovens, que pelo acumular de funções de quem já se encontra no mercado de trabalho, dispensa a abertura e novas vagas para novos quadros; cada vez menos disponibilidade para a vida familiar e social, apesar da maior facilidade de comunicação e transportes; A falta de proporcionalidade entre salários e os aumentos de carga horária e de responsabilidades; A pouca disponibilidade para hobbies e lazer, que tanto contribuem para uma vida saudável; e por fim, a ineficiência para as empresas que gastam recursos mas não aproveitam verdadeiramente o potencial dos seus colaboradores, pois quantidade não é qualidade.

Em suma, se pretendermos aumentar a nossa produtividade nacional temos de aumentar a motivação dos trabalhadores, dentro e fora do local de trabalho, evitando criar nos trabalhadores o sentimento de exploração e da falta de reconhecimento pelos seus esforços. Tal como permitir aos trabalhadores que, enquanto indivíduos com necessidades e não meras máquinas, tenham fora do período laboral tempo para si e para os seus. 

Só com trabalhadores motivados, com formação e adequadamente remunerados podemos aumentar a produtividade nacional. Caso contrário, mesmo inconscientemente, por mais horas que trabalhemos, nunca conseguiremos durante os nossos horários de trabalho realizar as tarefas que nos propõem, ou a que nos propomos, com o máximo de qualidade e concentração, evitando os erros, fomentando a eficiência e alcançando a almejada produtividade.

Recuar nos direitos laborais não é a solução para combater a falta de produtividade, muito pelo contrário, agrava-a e resulta em políticas laborais e de gestão terceiro-mundistas.

A “Europa”, simbolismo da qualidade de vida, está mesmo ali, à distância das nossas opções.



(Texto publicado no Diário de Leiria em 23 de Março de 2010)

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